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A Farinha Esquecida

Por Marcus Lima

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Sinopse

Miguel cresceu tentando deixar para trás a infância ribeirinha, a fala da família e o cheiro da farinha feita pelas mãos de Dona Jesuína. Anos depois, ao retornar às origens, ele reencontra memórias que julgava pequenas e descobre que aquilo que parecia esquecido era, na verdade, a base silenciosa de sua identidade.

Sumário
  1. Capítulo I — A casa onde o tempo ainda respirava
  2. Capítulo II — A cidade fazia barulho demais
  3. Capítulo III — A viagem de volta
  4. Capítulo IV — A casa que um homem levantou
  5. Capítulo V — A água, a caça e o amor que se decide
  6. Capítulo VI — Coisa séria se levanta devagar
  7. Capítulo VII — O retorno dos que partiram
  8. Capítulo VIII — A vida é uma velha louca
  9. Capítulo IX — Quando a casa aprende a respirar diferente
  10. Capítulo X — A farinha esquecida
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Capítulo I — A casa onde o tempo ainda respirava

Quando Miguel era menino, achava que a avó enxergava o que os outros não enxergavam. Não por estudo — disso Dona Jesuína tinha pouco —, mas porque parecia escutar o mundo por dentro, como se a água lhe contasse segredo, como se o vento que entrava pelas frestas trouxesse notícia de longe, como se o silêncio grande das margens do rio dissesse coisas que os outros já não tinham paciência de ouvir. Havia nela uma forma antiga de atenção, dessas que não se aprendem em livro nem em sala de aula; aprendem-se queimando dedo em forno quente, enterrando marido cedo demais, criando filho com pouco dinheiro, olhando cheia subir sem pedir licença.

Dona Jesuína não tinha papo bonito nem palavra de sobra. Falava quando precisava, e quando falava não levantava a voz como quem pretende vencer alguém; dizia as coisas como quem bota comida na mesa, sem cerimônia e sem pedir desculpa pela verdade. Tinha as mãos firmes, as costas ainda retas, o cabelo preso com severidade simples, e aquele olhar que não precisava ordenar para que os outros entendessem que certa brincadeira tinha ido longe demais. Dizia, quando alguém se enrolava em conversa: gente que fala demais é rio raso — faz barulho, mas não carrega nada. Dona Luzia, sua irmã mais nova, solteirona e faladeira profissional, era talvez a única criatura capaz de atravessar esse olhar e continuar falando, ainda que sempre um pouco mais baixo — o que, para Luzia, já era quase penitência.

A casa ficava levantada sobre estaca antiga, tábua escurecida pela umidade e pelos anos, telhado de zinco que transformava chuva em tambor de guerra, cozinha de fumaça impregnada, mesa marcada por faca, calor e vida. Miguel gostava das manhãs, quando acordava antes dos outros e via Jesuína acender o fogo, soprando as brasas com paciência, enquanto o cheiro do café passado no pano começava a tomar a casa. Às vezes havia beiju, às vezes macaxeira cozida, às vezes pupunha com café, às vezes banana pacovã frita, às vezes só café forte e farinha boa — porque nem todo dia vinha com fartura, mas quase todo dia vinha com dignidade.

— Já acordado, menino? — ela perguntava, como se já soubesse.

Miguel assentiu e sentou. A essa hora o rio parecia um bicho imenso e calado, respirando devagar sob a neblina, antes que os motores, as vozes, os remos e as urgências começassem a riscar a superfície da água. Para Miguel, não parecia pouco viver ali. Havia o quintal, a casa de farinha, o cheiro de peixe no fogo, os banhos demorados, o jirau na beira do rio onde diziam que tinha jacaré, o barulho de algum motor distante anunciando visita, as histórias de Dona Luzia, as poucas frases de Jesuína, os dias que pareciam inteiros. Quando ajudava na farinha, gostava menos do esforço do que do resultado, como quase toda criança; observava a mandioca virar massa, a massa perder líquido no tipiti, a farinha pular no forno como se ganhasse corpo e vontade, e tinha a impressão confusa de que alguma coisa se transformava ali diante dele — não só comida, mas tempo.

Uma vez perguntou por que aquilo precisava dar tanto trabalho.

Jesuína, sem tirar os olhos da massa, respondeu:

— Porque quase tudo que presta dá trabalho. O resto é facilidade, e facilidade não dura.

Miguel guardou a frase sem entender. Faria isso muitas vezes na vida. Era o seu estranho talento: guardar coisas antes de compreendê-las.

Mas os adultos falavam de futuro.

Rosária, a mãe de Miguel, pronunciava Manaus com uma espécie de reverência contida, como se a vida verdadeira acontecesse sempre em outro lugar. Não dizia isso por desprezo à mãe — embora às vezes parecesse —, mas por cansaço da dificuldade, por desejo de escola melhor para os filhos, por vontade de geladeira nova, luz sem falhar, emprego fixo, salário certo, médico perto. Francisco, o pai, falava menos de sonho e mais de ferramenta: carteira assinada, décimo terceiro, empresa, curso, estabilidade. Para ele, a cidade não era promessa poética; era método.

Teresa e João Paulo, irmãos mais velhos de Miguel, já haviam partido antes de partir. Teresa queria vitrines, escola grande, roupa melhor, um mundo onde ninguém a chamasse de menina do interior. João Paulo queria videogame, tênis, matinê, movimento, gente. Era popular antes mesmo de ter público, sorria como quem já se desculpava por alguma coisa que ainda faria e tinha o dom perigoso de transformar irresponsabilidade em charme.

Miguel não sabia o que queria. Gostava da avó, gostava do rio, gostava de ouvir a farinha bater seca na bacia, gostava de imaginar que aquela casa existira sempre e existiria para sempre. A infância tem esse privilégio cruel: confunde permanência com direito natural.

Na noite em que Francisco confirmou a vaga em Manaus, a chuva caiu tão forte que parecia que o céu inteiro estava sendo despejado sobre o telhado. A energia tinha ido embora, o rádio chiava depois de A Voz do Brasil, Teresa sorria como se o mundo finalmente houvesse começado, João Paulo perguntava coisas demais, Rosária apertava as mãos no colo e Francisco tentava manter o rosto grave dos homens que não podem demonstrar medo. Jesuína costurava, sem pressa. Depois de algum tempo, disse apenas:

— Cidade grande tem muita luz mesmo. Só precisa ver se clareia.

Francisco tolerou a frase com um meio sorriso. Miguel guardou.

Nos dias que antecederam a partida, a casa se encheu de pequenas separações. Utensílios vendidos, objetos escolhidos, coisas deixadas. Rosária embrulhava pratos como quem pedia desculpas aos objetos, Francisco calculava volumes, Teresa separava roupas com uma pressa quase ofensiva, João Paulo já falava como se conhecesse Manaus inteira. Miguel encontrou Jesuína descascando mandioca numa tarde abafada e perguntou se ela não queria ir com eles. Ela riu pelo nariz.

— Eu? — disse Jesuína. — E fazer o quê naquela zoada?

— Morar com a gente.

— Menino, tua tia Luzia vem ficar comigo.

Miguel se acalmou imediatamente. Conhecia Dona Luzia das visitas espaçadas, mulher de fala abundante, opinião instantânea e uma forma curiosa de comentar a vida dos outros com afeto suficiente para não parecer maldade.

— A senhora não vai ficar sozinha?

Jesuína ergueu uma sobrancelha.

— Sozinha? Com Luzia dentro de casa? Nem o silêncio vai sobreviver.

Na manhã da partida, quando a voadeira se afastou, Miguel olhou para trás. Jesuína estava no pequeno embarcadouro, vestido simples, cabelo preso, inteira. Ao lado dela, Dona Luzia já falava alguma coisa com gestos largos, provavelmente explicando a despedida para a própria despedida. Jesuína não acenava com desespero; apenas observava, como quem conhecia o tempo melhor do que todos ali. O motor afastando-se levantava um rastro de espuma escura, e os carapanãs, que ainda zumbiam baixinho perto da água parada, foram a última coisa que Miguel ouviu da margem antes do barulho do rio engolir tudo. Miguel não sabia ainda que certas despedidas continuam acontecendo por anos, mesmo depois que a embarcação já sumiu na curva do rio.


Capítulo II — A cidade fazia barulho demais

Antes da cidade propriamente dita, houve o rio.

Miguel ficou olhando pela lateral da embarcação, acostumado com outras águas, até dizer com a honestidade absoluta das crianças:

— Esse rio parece Coca-Cola.

João Paulo caiu na risada, Teresa também, Rosária soltou um "menino" automático das mães que querem preservar alguma compostura, e Francisco sorriu discretamente — porque parecia mesmo. O Negro era escuro, brilhante, vasto demais para a compreensão de um menino. Miguel achou bonito de um jeito quase assustador, como se aquela água escondesse alguma coisa. Anos depois aprenderia que certos rios, como certas pessoas, parecem silenciosos justamente porque carregam profundidades que não fazem questão de explicar.

Depois veio o calor de Manaus — não o calor conhecido da comunidade, misturado com água, folha, barro e vida respirando por todos os lados, mas outro, preso entre concreto, escapamento, telha quente e gente demais. Depois veio o barulho: ônibus, buzinas, motores, portas, música, vozes, anúncios, uma agitação permanente como se a cidade inteira estivesse atrasada para alguma coisa importante.

O apartamento alugado era pequeno, quente e sem qualquer poesia aparente, mas isso pouco importava no começo, porque tudo ainda possuía brilho de novidade. Rosária fazia questão de mostrar vitrines, ruas movimentadas, lanchonetes, lojas, como se precisasse provar — a si mesma antes de todos — que a escolha fora certa. Francisco começou na BASF e a empresa lhe fez bem. Era pontual, disciplinado, compreendia processos, não reclamava à toa, e quando vieram os cursos pelo SENAI agarrou-os com a seriedade de quem sabia que oportunidade não se trata como visita demorada. Subiu — primeiro pequenas responsabilidades, depois cargo de confiança — e a casa sentiu imediatamente: ventilador melhor, geladeira nova, televisão moderna, roupas menos contadas, idas ao SESI no fim de semana, balneário, piscina, lanche, cheiro de cloro, protetor solar barato e felicidade simples.

Miguel foi feliz em muitas tardes de Manaus, e isso era importante — porque se a cidade fosse apenas sofrimento, a história ficaria fácil demais e, portanto, falsa. Foi feliz no futebol de rua, gol de chinelo, discussão sobre falta, joelho ralado, suor até escurecer. Foi feliz juntando moedas com João Paulo para alugar meia hora de videogame e jogar Donkey Kong, às vezes uma hora quando a sorte ou alguma pequena manobra financeira permitia. Foi feliz quando comeu hambúrguer barato com refrigerante gelado como se aquilo fosse sinal indiscutível de progresso. Foi feliz no SESI, no barulho das crianças, no azulejo molhado do balneário, nos ônibus lotados que ainda pareciam aventura e não castigo. A cidade não o roubou de imediato. Primeiro ela o encantou. Toda cidade grande sabe encantar primeiro; cobrar, ela deixa para depois.

Na escola nova, numa das primeiras semanas, a professora pediu que cada um dissesse a comida favorita. Era atividade simples, daquelas que os professores usam para criar intimidade antes de ensinar coisa alguma. Os colegas foram falando: pizza, frango frito, lasanha, hambúrguer, salgado de festa. Miguel ouviu tudo aquilo e sentiu uma coisa estranha acontecer dentro dele — uma espécie de inventário involuntário, como se a pergunta tivesse aberto uma gaveta que ele não sabia que existia. A resposta verdadeira chegou antes de qualquer pensamento: farinha. Farinha com peixe. Farinha com ovo mexido. Farinha com banana. Farinha só, seca na palma da mão, com o gosto de forno e de manhã e de Jesuína. Mas ele olhou para os lados, viu as risadas, sentiu o peso daquelas respostas todas, e quando chegou a sua vez disse:

— Hambúrguer.

A professora anotou. Os colegas não estranharam. Miguel sentiu um alívio que envergonhou mais do que a própria mentira. Era a primeira vez que escondia quem era para parecer de algum lugar. Não seria a última.

O sotaque veio logo depois. Não que o seu fosse exótico ou incompreensível, mas havia nele uma cadência diferente, uma vogal mais aberta aqui, uma palavra mais antiga ali, resíduo da comunidade, do rio, de Jesuína. Na primeira vez que um colega repetiu uma expressão sua com aquela entonação exagerada que as crianças usam quando querem mostrar que alguém veio de lugar menor, Miguel entendeu sem precisar de explicação. Começou a observar como os outros falavam. Copiou ritmo, vocabulário, o modo de encurtar certas palavras e alongar outras. Aprendeu depressa. Tinha talento para isso, de um jeito que não o orgulhava.

O irônico — que ele só perceberia muito mais tarde — era que seus colegas também eram caboclos, filhos e netos de ribeirinho, de indígena, de gente que a cidade havia absorvido uma ou duas gerações antes. Manauara que se prezava não gostava de parecer do interior, mesmo que o interior morasse dentro de casa na forma de sotaque da avó, de tucunaré assado na brasa no domingo, de nome com origem que nenhum dicionário urbano explicava. A vergonha viajava rápido e procurava sempre alguém mais novo para pousar. Miguel, recém-chegado, era destino conveniente.

Quem realmente se apaixonou por Manaus foram Teresa e João Paulo. Teresa aprendeu depressa a ironia urbana, essa habilidade de fazer o passado parecer menor do que era. A comunidade virou interior, depois fim de mundo, depois assunto evitável. João Paulo transformou-se no guia natural de Miguel naquele novo universo. Sabia onde comprar lanche barato, como atravessar rua sem hesitar, quem conhecia quem, onde havia matinê, como mentir sem parecer mentira. Logo as fugas começaram. Mazika Hall, TVlândia — nomes que dentro de casa provocariam sermões proporcionais, por isso mesmo nunca ditos. Miguel ia levado como mascote e voltava um pouco menos menino.

Os telefonemas para Jesuína continuaram por um tempo. Ela perguntava:

— E aí, doutor?

Ele ria.

— Ainda não.

Do outro lado, Dona Luzia gritava alguma coisa que ninguém pedira. Jesuína devia lançar aquele olhar antigo, e a irmã provavelmente continuava, mas em volume inferior. As conversas foram ficando mais curtas, não por falta de amor, mas por excesso de vida. Havia jogo, videogame, saída, escola, amigos, pressa.

Houve uma tarde em que Jesuína ligou de propósito — coisa rara. Disse que tinha sonhado com ele. Miguel ouvia com um olho na rua, onde João Paulo já acenava apontando o relógio. O filme começava em vinte minutos.

— Depois a gente continua, vó. Tô saindo agora.

Ela disse tudo bem. E era exatamente esse tudo bem que ele levaria anos sem entender.

Juventude raramente abandona raízes com violência. Apenas se distrai delas.

A cidade ensinava depressa. Aos quinze, dezesseis anos, Miguel já conhecia caminhos, risadas, códigos, desejos. João Paulo era popular como se tivesse nascido para isso — cantava, tocava violão, fazia amigos em qualquer esquina, entrava nos lugares como quem sempre estivera convidado. Teresa tornou-se afiada, ambiciosa, certa de que crescer significava vencer qualquer vestígio de origem. Miguel os admirava mais do que admitia. Ria quando eles riam das lembranças do interior. Escondia uma palavra aqui, outra ali. Começava a achar que a infância pertencia a uma versão menor dele mesmo.

A Ponta Negra apareceu cedo. João Paulo levou, como levava para tudo. A praia ficava na zona oeste e tinha, no fim de tarde, uma vida própria que nenhum outro canto da cidade oferecia: famílias com isopor e guarda-sol, casais nos cantos onde a areia tocava o mato, vendedores de tacacá e açaí e cerveja gelada, crianças que entravam na água sem pedir licença à correnteza, moças em grupos que olhavam sem olhar, rapazes compensando com descaro exatamente o que fingiam ter. Carapanã em abundância. Miguel gostava de sentar um pouco afastado e ficar de bubuia observando tudo aquilo — a vontade de entender como as pessoas se movem quando acham que ninguém está prestando atenção.

Era uma mistura que Manaus produzia com naturalidade e que outras cidades tentariam organizar em setores. O homem de camisa polo com cooler novo ficava a dez metros do pescador descalço que vendia pirarucu assado num papel de jornal. A mãe vestia o filho de domingo para vir à praia. O adolescente rico andava com a mesma bermuda rasgada do adolescente pobre porque bermuda rasgada estava na moda, e a moda era democrática nesse sentido específico. João Paulo já conhecia alguém em cada roda e transitava entre todas com a facilidade de quem nunca precisou de apresentação. Miguel o seguia; depois de algum tempo, não precisou mais.

Na fábrica, fez amigos do jeito que fábrica produz: pela repetição, pelo turno, pela cerveja de sexta-feira que era o verdadeiro salário emocional de todo aquele esforço semanal. Walber era o mais próximo, de Santarém, chapado de humor e de dívida em proporções iguais, homem de citar Brega com a seriedade que outros reservam para bíblia. Havia também Claudinho, supervisor de meia-patente, esperto com as pessoas de um jeito que só ficou claro mais tarde: ele entendia antes dos outros o que cada um precisava ouvir para fazer o que ele queria. Miguel demorou para notar essa distinção.

O Amazonas Shopping era o destino das sextas de boa notícia — promoção, aniversário, pagamento chegando. Qualquer pretexto que justificasse o ar-condicionado, o corredor cheiroso de loja nova, a praça de alimentação com bandejas coloridas e a sensação de pertencer a um mundo que havia aceitado a presença de todos ali. Miguel comia hambúrguer com Walber e via passar famílias do interior com criança vestida de domingo, executivos de gravata afrouxada, adolescentes em bando sem destino e com urgência. A cidade inteira comprimida entre o vidro e as vitrines, convencida coletivamente de que aquilo era chegada.

Mas a sexta com peso — aquela onde a semana finalmente largava o pescoço — era no Centro. O Bar do Armando ficava na Praça São Sebastião, no entorno do Teatro Amazonas, e tinha daquele jeito de lugar que não precisa se esforçar porque o tempo já fez o trabalho: mesas de plástico na calçada, chope que chegava antes de ser pedido, barulho crescendo na medida exata do horário. Do outro lado da praça, o Teatro com a cúpula iluminada olhava para tudo aquilo com uma dignidade que não julgava. Miguel gostava desse contraste: a construção mais bonita da cidade vigiando homens cansados bebendo cerveja barata na calçada. Parecia honesto. Parecia Manaus.

Nessas noites a conversa tinha outra qualidade, dessas que só existem depois do segundo chope, quando as defesas baixam antes do juízo. Walber contava da família em Santarém com aquela mistura de saudade e alívio de quem partiu sem ter certeza se fez certo. Claudinho falava de planos com a precisão de quem já calculou cada passo, mas preferia apresentar como improvisação. Miguel falava pouco e ouvia muito — jeito antigo ressurgindo sem que ele percebesse. Havia uma camaradagem naquelas noites, uma solidariedade de homens que dividiam cansaço sem precisar explicitá-lo. Achava que tinha achado tribo.

Claudinho apareceu com um projeto. Não era ordem, era convite — que era o jeito dele, sempre —: uma reestruturação de linha que, se saísse bem, justificaria uma nova posição de gestão. Ele precisava de dois que fossem confiáveis. Pensou neles.

— Tu e Walber têm o que dinheiro nenhum compra — disse, com aquele sorriso de quem distribui presentes. — Estudo e garra. Isso aí vai mudar a vida dos dois.

Miguel e Walber trabalharam. Semanas, um mês, dois. Ficavam depois do turno, iam aos sábados, trocaram finais de semana no Bar do Armando por planilhas num refeitório vazio. Claudinho aparecia, elogiava, sugeria, desaparecia. Era seu talento: fazer o trabalho dos outros parecer colaboração.

Quando o projeto foi para a diretoria, ele apresentou. Slides que Miguel tinha feito, números que Walber tinha fechado, linguagem que era a dos dois misturada e limada pelo toque final de Claudinho, que sabia muito bem como falar para quem tinha poder. A reunião durou quarenta minutos. A promoção saiu em três dias. Era dele.

Walber ficou olhando para a folha de aviso colada no mural e só disse:

— Égua.

Miguel não disse nada porque não havia o que dizer que não fosse óbvio. O que aperreiou não foi perder — perder ele sabia fazer —, mas a clareza repentina de como havia funcionado a máquina inteira: o afago, o projeto, os sábados trocados, o elogio calibrado para produzir esforço sem produzir suspeita. Aquilo tinha nome. Trairagem. Claudinho não havia mentido em nenhum momento. Havia apenas omitido o suficiente. A cidade ensinava coisas assim: que nem todo olho que te vê está te reconhecendo.

Virou supervisor um ano depois, por outro projeto, mérito documentado e insistência calada. Walber foi até a bancada dele só para dizer — Eu acho é Rocha! — e voltar ao posto sem mais cerimônia. Era o suficiente. Ganhou mais, mudou de apartamento, comprou roupa melhor, passou a frequentar outros andares do mesmo prédio em reuniões que duravam mais do que precisavam e decidiam menos do que prometiam. Satisfação real nisso havia, e era importante não mentir sobre ela: dinheiro muda coisas concretas, e concreto não é pouco. Mas o vazio crescia em silêncio, desses que não fazem barulho justamente porque são alimentados pela ocupação. Quanto mais trabalhava, menos tempo sobrava para perceber que o trabalho havia deixado de ser meio e virado fim. A agenda cheia é uma forma de anestesia muito eficiente.

O Bar do Armando foi sendo substituído por restaurantes de nome, depois por jantares de cliente, por eventos corporativos onde a comida era boa e a conversa vazia — e ninguém fingia não perceber porque todos já tinham aprendido a não olhar. A Ponta Negra ficou para as tardes de ressaca, quando ainda fazia sentido ir a algum lugar sem motivo. Walber continuou amigo de uma distância que nenhum dos dois quis nomear. Claudinho subiu mais dois cargos e mandava mensagem no aniversário de Miguel todo ano — sempre a mesma fórmula, sempre com aquela intimidade artificial de quem nunca esquece um nome porque anotou num calendário. "Comeu jaraqui, não sai mais daqui", dizia o ditado. Miguel sabia que era verdade, mas não da forma que o ditado pretendia.

Havia uma noite em particular que ele lembraria depois sem saber por quê: saiu do turno tarde, camisa colada ao corpo, cheiro de máquina e produto no cabelo, foi com os colegas para um bar onde a música era alta demais para qualquer pensamento, bebeu mais do que devia, beijou uma mulher cujo nome esqueceu antes de chegar em casa, riu de coisas sem graça, voltou de madrugada num táxi dividido, entrou no quarto em silêncio para não acordar ninguém e, antes de dormir, viu no espelho um rosto inchado de álcool e cansaço. Não estava triste. Esse era o problema. A tristeza ao menos acusa. O vazio, quando vem disfarçado de diversão, demora mais a ser reconhecido.

Outro dia, no refeitório da fábrica, comeu uma marmita industrial sem gosto — arroz morno, carne dura, feijão cansado — e lembrou sem querer da farinha de Jesuína. A lembrança foi breve, quase irritante, como mosquito. Sacudiu-a e voltou a conversar sobre salário, mulher, futebol, chefe, horas extras. A cidade não tirava as coisas de uma vez; substituía devagar, até que a pessoa esquecia o sabor da própria origem e passava a chamar esquecimento de adaptação.

Uma quarta-feira comum, no meio de ruído industrial e ar pesado, Teresa ligou. A voz vinha sem ironia.

— Miguel, a vó tá doente.

Ele encostou na parede. Ao redor, homens falavam, máquinas trabalhavam, cheiros químicos persistiam, mas tudo se afastou.

— Desde quando?

— Faz um tempo.

A frase foi pior que a notícia. Faz um tempo. Como se a vida real tivesse acontecido sem consultá-lo.

— Por que ninguém me falou?

Teresa hesitou.

— Porque tu nunca tinha tempo.

Naquela noite Miguel não saiu, não bebeu, não encontrou ninguém. Ficou sozinho, ouvindo os sons da cidade que de repente pareciam inúteis, e pensou na casa, na mandioca, no café, no rio, no rosto de Jesuína, na última promessa de visita que talvez jamais tivesse pretendido cumprir. De manhã pediu afastamento, comprou passagem e voltou — sem saber que parte dele também estava voltando.

Parte II — O Retorno


Capítulo III — A viagem de volta

Voltar é estranho, não porque os lugares mudem imediatamente diante dos olhos, mas porque quem volta nunca é exatamente o mesmo que partiu. Miguel percebeu isso antes mesmo de embarcar, no terminal desordenado, entre sacolas, isopores, crianças inquietas, gente dormindo onde dava, cheiro de fritura e motor. A chalana balançou de leve quando o motor pegou, e o cheiro de óleo se misturou ao da água parada do porto. Quando o barco avançou e o rio escuro reapareceu, a lembrança veio com violência quase absurda: Coca-Cola. Quase riu, quase chorou, não saberia dizer.

Dezessete anos.

Como alguém deixa dezessete anos acontecerem.

Na chegada, o cheiro foi o primeiro golpe: barro, água, madeira, fumaça, vegetação, infância. Certos cheiros ignoram décadas e vão direto ao centro da memória. Dona Luzia apareceu primeiro, mais velha, mais magra, mas absolutamente a mesma.

— Agora lembra que tem família, né?

Abraçou-o com força inesperada. Depois se afastou para avaliá-lo.

— Tá com cara de cansado.

— Trabalhando.

— Trabalhando, não. Tá com cara de quem andou fazendo besteira.

Aquilo o desmontou porque era exatamente o tipo de coisa que sempre teria ouvido ali. Entrou na casa. Ela parecia menor — o que talvez significasse apenas que ele crescera. O mesmo cheiro, o mesmo piso, o mesmo ar, o rádio baixo como se o tempo tivesse preservado certas misericórdias. Jesuína estava deitada. Aquilo doeu. Não porque parecesse morrendo, mas porque parecia humana. Na memória de Miguel, ela era quase elemento da paisagem, permanente, forte, imutável. Agora havia magreza, fragilidade, tempo. Mas quando virou o rosto e o viu, os olhos eram os mesmos.

— Demorou, menino.

Foi pior assim. Muito pior. Miguel ajoelhou ao lado da cama como se ainda tivesse oito anos, tentou falar e não conseguiu. Jesuína ergueu a mão devagar, tocou o rosto dele e disse:

— Tu cresceu feio.

Ele riu chorando.

— Também tava com saudade da senhora.

— Saudade não pesa se a pessoa visita.

A frase veio sem crueldade, por isso mesmo doeu mais. Naquela tarde, enquanto Dona Luzia fingia não chorar ocupando-se de café, Miguel ficou perto da cama e sentiu que alguma parte profundamente esquecida dele voltava para casa — não como absolvição, mas como cobrança.

Nos dias seguintes, Miguel dizia que ficaria apenas mais alguns dias. Era uma mentira modesta, dessas que não se contam exatamente para enganar os outros, mas para tornar suportável aquilo que ainda não se tem coragem de decidir. Mais alguns dias até a avó melhorar, até colocar as coisas em ordem, até descansar da cidade, até pensar.

Foi andando pela propriedade que viu a casa de farinha quase parada. O telhado precisava de reparo, uma lateral cedia, o tipiti ressecara, o forno ainda funcionava, mas cansado. Perto dali, encostada num canto, a velha canoa que sobrara dos tempos de Auvino estava furada, virada de bruços como bicho morto. Aquele lugar que na infância lhe parecera tão vivo tinha agora a aparência silenciosa das coisas que deixaram de ser centrais. Havia farinha em pouca quantidade, feita de quando em quando, mais por teimosia de Jesuína do que por produção; o espaço inteiro parecia esperar mãos que tivessem desistido dele.

Jesuína apareceu atrás dele.

— Tá olhando como se fosse velório.

— Tá abandonado.

— Eu envelheci.

A resposta simples o atingiu. Não era símbolo. Era tempo.

— Por que não arrumaram?

Jesuína olhou para ele como se a resposta fosse óbvia.

— Quem?

Miguel não respondeu. Ela completou:

— Tudo que a gente deixa parado vai morrendo. Igual aquela canoa ali. Furada de tanto ficar de bruços no seco, esperando quem nunca veio buscar.

Naquele mesmo dia tentou ajudar. A mandioca não obedecia, a faca parecia ter vontade própria, a postura errada fazia doer músculos que ele desconhecia. Dona Luzia assistia sem misericórdia.

— Esse aí foi montado em apartamento.

Miguel respirou ofegante.

— Tô aprendendo.

— Tá desaprendendo a viver mole.

Foi também nesse período que Isabele entrou na história. Filha de Seu Mundico, dono do flutuante que vendia gelo, refrigerante, isca, cerveja, mantimentos e pequenas soluções para emergências variadas, era mulher um pouco mais velha que Miguel, bonita sem pedir atenção, rosto forte, olhar firme, corpo de quem viveu, presença de quem já não tinha paciência para impressionar ninguém.

Quando a apresentaram a Miguel, ela o olhou de cima a baixo sem cerimônia.

— Tu veio vender terreno ou morar aqui?

— Ainda não sei.

Ela o olhou por um segundo a mais.

— Homem que não sabe geralmente já decidiu e só tá com medo de admitir.

Depois foi embora sem esperar resposta. Dona Luzia percebeu o olhar de Miguel e abriu um sorriso perigoso.

— Ih.

Jesuína ergueu os olhos. Luzia reduziu o entusiasmo por alguns segundos. Poucos. Depois, em voz mais baixa, como quem confia sem querer contar:

— Passou por coisa ruim, essa menina. Marido que foi pra Manaus e ficou por lá. Mas não vai ficar triste com pouca coisa, não.

Jesuína não comentou. Miguel guardou.


Capítulo IV — A casa que um homem levantou

A decisão de ficar não veio como raio. Veio como pendência. Miguel retornou a Manaus para pedir demissão, sacar a rescisão e o FGTS na Caixa Econômica, pagar pequenas dívidas, buscar malas, documentos, roupas, alguns objetos sem valor e outros com valor absurdo — porque memória raramente obedece preço. No banco, esperando senha, cercado de gente impaciente, segurou o papel da rescisão e sentiu pela primeira vez que um contracheque também pode ser corrente, não porque o dinheiro não sirva, mas porque às vezes a pessoa se acostuma a medir a própria vida apenas pelo que entra todo mês.

João Paulo apareceu no antigo apartamento, cheiro de noite mal dormida, óculos escuros sem necessidade, carisma intacto.

— Tu enlouqueceu.

— Pode ser.

— Vai virar pescador agora?

Miguel pensou.

— Talvez.

João Paulo gargalhou, depois ficou sério de um jeito raro.

— Tá feliz?

— Acho que tô ficando.

— Então vai.

Aquilo significou mais do que Miguel admitiria. Antes de voltar, comprou uma voadeira usada e uma malhadeira. A intenção ainda era distante e quase ingênua: aprender a pescar, vender algum peixe, ganhar dinheiro próprio, não depender apenas da farinha. Na teoria parecia respeitável. Na prática, na primeira tentativa de instalar a malhadeira, quase virou espetáculo público.

Não era jogar rede na água. Era controlar motor, correnteza, peso, distância, tempo, corpo, ansiedade. A voadeira girava, a malhadeira enroscava, Miguel quase foi puxado junto. Isabele apareceu no flutuante, braços cruzados.

— Tu acha que sabe pescar?

— Tô aprendendo — respondeu Miguel, tenso, lutando com os nós.

— Então aprende quieto.

Ela entrou para ajudar e, por alguns minutos, o desastre tornou-se compartilhado. Quase perderam o equilíbrio, ela segurou o braço dele, ele segurou a cintura dela, houve meio segundo de consciência súbita da proximidade, mas a realidade voltou com rede afundando errado e barco derivando. Isabele desistiu.

— Espera aqui.

Voltou com Seu Pedro, homem sério, seco, pele curtida, braços de trabalho, movimentos econômicos. Primo distante de muita gente, respeitado por todos por conhecer pesca como quem conhece um idioma antigo. Observou a rede, o motor, Miguel.

— Foi tu?

Miguel assentiu.

— Corajoso.

Nas mãos dele, o caos virou técnica. Explicava pouco, demonstrava muito.

— Água não aceita pressa. Tu tá brigando com ela.

Naquela tarde não aprenderam pesca. Aprenderam respeito. Miguel voltou para casa molhado, arranhado, humilhado e, estranhamente, satisfeito. A cidade quase nunca lhe dera esse tipo de cansaço limpo.

Pouco depois, outra revelação abriu em Miguel uma responsabilidade maior. Ele tentava substituir uma tábua antiga da casa quando reclamou:

— Essa madeira já deu o que tinha que dar.

Jesuína, sentada perto, limpando peixe, levantou os olhos.

— Foi teu avô que botou essa.

— Meu avô?

— Auvino.

O nome existia para Miguel como coisa distante, parente anterior à memória.

— Foi ele que fez isso aqui?

— Quase tudo.

Miguel olhou o teto, as colunas, as marcas. A casa inteira pareceu se reorganizar diante dele.

— Quem ele era?

Jesuína demorou. Não por esquecimento, mas por respeito.

— Soldado da borracha.

Miguel assentiu automaticamente, mas ela percebeu o vazio.

— Tu sabe o que era isso?

— Mais ou menos.

— Não era trabalho bonito, não. Trouxeram teu avô do Nordeste. Prometeram dinheiro, honra, chamaram de soldado pra parecer importante. Mas era floresta, doença, abandono. Tiraram muito homem da família e botaram no meio do mato pra tirar borracha como se fossem peça de máquina. Malária levava. Cobra levava. Febre levava. Jacaré levava. Fome levava. A floresta decidia. E depois esqueceram deles.

Miguel ouviu imóvel.

— Chamavam de arigó — ela disse, e o modo como pronunciou a palavra carregava desprezo antigo, não pelos homens, mas pelo mundo que os tratara assim. — Como se fosse menos gente. Menos brasileiro. Menos digno.

Jesuína se levantou devagar e foi até um baú velho encostado na parede. Abriu sem cerimônia. Remexeu entre panos, cartas sem envelope e coisas esquecidas até encontrar dois papéis dobrados, amarelados, frágeis como folha seca. Estendeu a Miguel sem palavra.

Eram folhetos de propaganda do governo. Da Segunda Guerra. Miguel leu devagar. Palavras que prometiam honra, pátria, vitória. Num deles, um homem extraía látex sob letras que falavam em esforço de guerra. No outro, a floresta aparecia limpa, heroica, quase bonita — como se febre, fome, cobra, malária e abandono coubessem fora da propaganda. A mentira não estava apenas no que diziam; estava principalmente no que escondiam.

Miguel ficou olhando para os folhetos por tempo demais. Depois dobrou de volta, com cuidado, como quem devolve relíquia emprestada.

Auvino deixou de ser nome. Virou carne. Homem arrancado da família, sobrevivente de uma tragédia nacional, abandonado pelo país e, ainda assim, capaz de levantar uma casa.

— E a senhora conheceu ele como? — Miguel pousou o folheto.

— Festa de santo. Ele me chamou pra dançar.

— E a senhora foi? — Miguel inclinou o corpo.

— Fui.

— Fácil assim?

Jesuína riu.

— Nem toda história precisa complicar pra parecer importante. Coisa boa, às vezes, é simples desde o começo. Quem acha que amor precisa de drama nunca conheceu amor de verdade — só conheceu novela.

A malária levou Auvino cedo. Febre, fraqueza, e foi. Sem grande cena, como a vida costuma fazer.

— A senhora nunca quis casar de novo?

Ela pareceu sinceramente intrigada.

— Pra quê? — perguntou, sincera.

— Sei lá. — Miguel desviou o olhar.

— Já tive teu avô.

— Só isso?

O espanto dela foi quase comovente.

— E precisava mais?

Depois passou a mão na madeira.

— Essa casa ele levantou com as mãos. Carregou madeira, mediu, cortou, errou, refez. Eu ajudei. Aqui a gente criou filho, passou cheia, passou doença, passou aperto, passou alegria. Quando tu encosta nessa parede, encosta nele também.

A frase atingiu Miguel como golpe no peito. A casa deixou de ser abrigo e virou legado, amor materializado, sobrevivência convertida em espaço. Mais tarde, sozinho, ele passou a mão numa coluna antiga e pensou que durante anos acreditara estar construindo a própria vida, quando talvez tivesse apenas consumido estruturas levantadas pelo sacrifício de outros. Ali nasceu uma vontade nova: não apenas morar ali, mas também deixar alguma coisa de pé.


Capítulo V — A água, a caça e o amor que se decide

Miguel aprendeu devagar. Com Seu Pedro, aprendeu que rede não gosta de ansiedade e que rio percebe homem afobado. Com Seu Mundico, aprendeu que humor seco pode ser forma de batismo. Mundico trazia tambaqui e dizia:

— Trouxe um sem espinha.

Miguel, no início, ainda perguntava sério:

— Sem espinha?

— Caiu tudo de velho.

Dona Luzia retrucava:

— Igual tu.

Mundico respondia:

— Minha coluna ainda presta mais que tua língua.

E nesse teatro de provocações Miguel foi sendo lentamente adotado por aquele mundo, não romanticamente, nem como filho pródigo, mas como homem em observação. Isabele observava mais que todos. Não olhava para ele como moça encantada olha para promessa; olhava como mulher que já pagara caro por acreditar em promessa demais. Às vezes Miguel achava que ela o achava feio. Achava mesmo. Mas havia nele uma feiura interessante, desses rostos que não agradam de imediato e depois vão se tornando difíceis de esquecer, como se a assimetria escondesse alguma verdade que beleza fácil não carrega.

Certo dia, Mundico o chamou para caçar. Ou melhor, comunicou:

— Amanhã.

A mata tinha outro silêncio, menos generoso que o rio. Mundico ali mudava, menos piadista, mais preciso. Ensinava onde pisar, quando parar, quando respirar menos. Miguel fazia barulho demais, movimento demais, cidade demais.

— Se continuar assim, até mosquito vai rir.

Enquanto os homens caçavam, as mulheres conversavam. Jesuína descascava alguma coisa, Luzia falava como se silêncio fosse doença, e Isabele ajudava mecanicamente, mas com atenção ausente. Luzia percebeu primeiro.

— Ih. — Luzia soltou um sorriso de quem viu antes dos outros.

— O quê? — Isabele não levantou os olhos do que fazia.

— Tá pensando nele.

— Não tô.

— Claro.

Jesuína ergueu os olhos, e Luzia reduziu a performance por alguns segundos. Isabele terminou cedendo à verdade.

— Não quero perder tempo. Já perdi uma vez.

Jesuína assentiu como quem reconhece dor sem explorá-la.

— E ele?

— Ainda não sei se quer vida ou só uma fase bonita.

Era justo. Jesuína falou sem olhar diretamente, como quem comenta o clima.

— Tem homem que demora porque nunca precisou escolher de verdade. Homem que só experimentou movimento demora pra reconhecer permanência.

— E se eu esperar e ele for embora?

— Então foi embora.

Nada sentimental. Nada reconfortante. Só verdade.

— Mas não escolhe por medo do que talvez aconteça.

Luzia, surpreendentemente séria, completou:

— Tempo perdido com homem errado dói. Mas tempo perdido fugindo do certo também.

Quando os homens voltaram com cotia e paca, Miguel viu a comida deixar de ser conceito e virar animal, peso, pelo, sangue, calor ainda presente. Na hora de comer, tentou e não conseguiu. Foi de galinha. Mundico observou.

— Fresco?

— Talvez — respondeu Miguel.

— Melhor fresco que mentiroso — disse Mundico.

Mais tarde, Isabele disse:

— Podia fingir.

— Pra quê?

Ela o olhou e sorriu de verdade pela primeira vez.

— Bom.

Depois disso, Isabele começou a aparecer onde Miguel menos esperava — não como moça que procura desculpa para encontro, mas como mulher que sempre tinha uma razão prática para estar ali: um pano esquecido no flutuante, uma encomenda para Luzia, um recado de Mundico, uma faca emprestada que precisava voltar. Miguel fingia não perceber a fabricação dos acasos. Ela fingia melhor ainda.

Numa tarde de chuva rápida, ele a encontrou recolhendo roupa no varal de Mundico. A água desceu grossa, de uma vez, e os dois correram para debaixo do beiral, molhados antes de chegarem ao abrigo. Isabele torceu a ponta da blusa, irritada com a própria falta de previsão, e Miguel, sem saber se podia rir, acabou rindo pouco. Ela olhou feio.

— Tá achando graça?

— Um pouco.

— Tu é leso.

— Tô descobrindo que talvez seja.

Ela desviou o rosto para esconder um sorriso. Ficaram ali alguns minutos, lado a lado, ouvindo a chuva bater no telhado. Não houve beijo, nem declaração, nem música — que a vida real não costuma providenciar. Houve apenas o ombro dela roçando o dele por descuido ou escolha, e Miguel sentiu que certas coisas começam assim: não quando alguém fala, mas quando ninguém se afasta.

Dias depois, quando Miguel finalmente conseguiu fisgar um tucunaré sozinho e o ergueu com o orgulho bobo dos homens que aprendem tarde, Isabele olhou de rabo de olho do alto do flutuante e soltou:

— Esse tucunaré tá maior na tua história do que tava no anzol.

Miguel riu, balançando a cabeça.

Outra noite, ao voltar da pesca com as mãos marcadas pela corda, encontrou na varanda de Jesuína um prato coberto: peixe assado, farinha e uma pimenta pequena que quase o matou. Isabele passara ali mais cedo. Não deixara bilhete. Não precisava. Miguel comeu devagar, suando pela pimenta e sorrindo sozinho como um idiota. Jesuína, da rede, observou sem levantar a voz.

— Se sorrir mais, azeda a comida.

Ele baixou a cabeça. Luzia, naturalmente, viu tudo.

O amor cresceu assim, sem explosão, dentro da vida. Entre pesca, farinha, gelo, motor, trabalho, cuidado. Mas Rosária, ao visitar, trouxe o fantasma de Manaus na forma de concurso público para a prefeitura. Emprego estável, benefício, segurança. Ela não fazia por mal. Mães raramente reconhecem como controle aquilo que chamam de preocupação.

Dona Luzia, naturalmente, deu com a língua nos dentes diante de Isabele:

— Aproveita enquanto teu homem ainda tá aqui antes de virar concursado da prefeitura.

O silêncio foi físico. Isabele saiu. Miguel foi atrás.

— Tu entendeu errado.

Ela riu sem humor.

— Ah, entendi errado? Homem da cidade chega cheio de conversa bonita, quer paz, quer recomeço, quer vida simples, aí aparece estabilidade e pronto.

— Não é isso. — Miguel deu um passo.

— Igualzinho. — Ela não recuou.

— Não me compara com ele.

Ela explodiu em precisão.

— Então não age igual. Eu não vou me lascar duas vezes com a mesma história. Vai lá com as tuas negas.

Miguel ficou imóvel.

— Eu não tenho nega nenhuma.

— Ainda.

A frase cortou. Ele então falou sem esconderijo.

— Eu tava com medo. Medo de decepcionar meu pai, minha mãe, medo de parecer irresponsável, medo de fracassar, medo de descobrir que isso tudo era só crise bonita de homem perdido. Mas sabe o que me deixou realmente com medo agora? Te ver olhando pra mim como se eu fosse ele.

Ela permaneceu imóvel.

— Eu amo tu.

O silêncio depois da frase pareceu expandir o mundo.

— Eu não disse antes porque eu mesmo não confiava totalmente em mim. Queria ter certeza que não era carência, nostalgia, medo da cidade. Agora eu sei. Eu não quero concurso, não quero prefeitura, não quero voltar, não quero fugir. Eu quero ficar. Aqui. Com essa dificuldade. Com tua desconfiança até ela passar. Contigo.

— Tu decidiu mesmo?

— Decidi.

Isabele o observou por tempo suficiente para pesar a alma inteira dele. Depois se aproximou.

— Se tu mentir pra mim, eu acabo contigo.

— Justo.

Ela segurou a camisa dele e o beijou — sem delicadeza adolescente, sem hesitação, como mulher que finalmente decidiu parar de fugir também.


Capítulo VI — Coisa séria se levanta devagar

O romance entre Miguel e Isabele não aconteceu como nos filmes, porque filmes raramente sabem o preço da telha. Aconteceu dentro da vida, entre trabalho e contas, peixe e farinha, mercadoria e cansaço, presenças prolongadas e silêncios bons. Ficou mais forte justamente por não ter tempo de posar.

Nos meses seguintes, aprenderam uma intimidade sem pressa. Miguel descobriu que Isabele não gostava de promessa repetida; preferia gesto. Gostava que ele chegasse no horário combinado, que lembrasse do que havia dito na semana anterior, que não transformasse qualquer gentileza em espetáculo. Isabele descobriu que Miguel tinha uma ternura meio sem jeito, quase envergonhada, dessas que aparecem quando ele remendava uma janela sem que ninguém pedisse ou deixava a melhor parte do peixe no prato dela fingindo distração.

Às vezes, depois que todos dormiam, sentavam no pequeno espaço diante da casa de Jesuína e falavam baixo para não dar assunto a Luzia — esforço inútil porque Luzia farejava assunto antes que ele nascesse. Isabele contava pouco do que sofrera, mas o pouco bastava. Miguel não perguntava além. Havia perguntas que seriam curiosidade, não cuidado.

— Tu ainda tem medo de eu ir embora? — ele perguntou uma noite.

Isabele demorou.

— Tenho medo de eu acreditar demais. É diferente.

— E acredita?

Ela olhou para ele, sem romantismo fácil.

— Tô indo nessa direção.

Aquilo, vindo dela, valeu mais que qualquer jura. Miguel segurou sua mão sem apertar. Isabele deixou. O rio fazia escuro em volta, e a casa antiga, atrás deles, parecia aceitar em silêncio que uma nova história se encostasse à sua parede.

Foi Jesuína quem colocou eixo naquilo.

— Romance é bonito. Vida custa.

Todos ouviram. Ela olhou para Miguel e Isabele.

— Homem apaixonado promete muito. Homem sério planeja. Isabele não é moça da cidade pra brincar de visita e desvisita. E tu também, Isabele. Amor não paga gasolina, nem telhado, nem comida, nem menino. Se é sério, faz direito.

Depois apontou com simplicidade devastadora:

— O terreno ali do lado da casa de farinha tá vazio. Dá pra levantar uma casa pequena. Começo. Nada grande. Nada besta. Mas dos dois.

Miguel ficou sem fala. Isabele também.

— Teu avô começou com menos — disse Jesuína.

O terreno era simples, irregular, com mato, nada impressionante. Justamente por isso pareceu gigantesco. Miguel imaginou cozinha, rede, quarto. Isabele o interrompeu com realismo.

— Eu não quero sonho bonito e dívida feia — disse Isabele.

— Nem eu — respondeu Miguel.

— Tu sabe no que tá se metendo?

— Não completamente. Mas dessa vez eu fico até aprender.

A casa foi erguida aos poucos, não sem dificuldade, não sem humilhação. Amor ajuda, mas não assenta madeira. Entusiasmo anima, mas não paga telha. Vontade é matéria nobre e inutilíssima diante da falta de dinheiro.

Houve semanas em que o dinheiro não chegava para a próxima tábua e Miguel ficava olhando para a estrutura incompleta com aquela sensação de ter prometido mais do que podia cumprir. Isabele não reclamava nos momentos difíceis — apenas perguntava, prática, o que era possível fazer com o que havia. Essa forma de não desistir sem fazer barulho ensinava mais do que qualquer conselho.

Seu Mundico comandava com humor, Seu Pedro corrigia com secura, Dona Luzia atrapalhava logisticamente e, sempre que Mundico aparecia com alguma ferramenta, Luzia tinha comentário pronto demais para parecer casual.

— Tu vem ajudar ou vem fiscalizar minha vida? — ela perguntava.

— Tua vida ninguém fiscaliza. Dá prejuízo.

— Olha que ainda arrumo homem melhor.

— Boa sorte pra ele.

Miguel e Isabele achavam graça, mas havia ali uma intimidade antiga, quase clandestina, construída de implicância, viuvez, solidão e visitas ao flutuante que demoravam mais do que o necessário. Jesuína via. Naturalmente via. E, quando Luzia exagerava na defesa de que Mundico era apenas um velho abusado, Jesuína apenas erguia os olhos. Isso bastava.

Francisco apareceu por poucos dias e inevitavelmente entrou no serviço. Miguel viu o pai lixando madeira com esforço visível.

— Deixa que eu faço.

Francisco não levantou os olhos.

— Ainda sei usar a mão.

Mas entregou. Entre homens, aquilo foi intimidade.

Teresa apareceu durante a construção. Já advogada, casada com um vereador ambicioso e bem penteado, chegou cheirosa, elegante, urbana, afiada. O marido — vereador a quem todos chamavam de doutor sem muita convicção — tentou impressionar Seu Mundico falando de desenvolvimento, investimento, potencial da região.

— Hum — disse Mundico, quando o discurso terminou.

Mais tarde Teresa olhou Miguel por inteiro: mãos, pele, postura.

— Tu parece mais inteiro.

Vindo dela, valia.

— E tu?

Ela sorriu como quem venceu a pergunta sem responder.

— Eu tô bem.

Miguel não acreditou completamente. A inteligência de Teresa sempre fora brilhante, mas também defensiva, e agora havia nela um cansaço sofisticado, uma espécie de exaustão de quem passara tempo demais sendo competente em ambientes onde a competência não protegia ninguém da solidão.

João Paulo chegou sem aviso semanas depois, fugindo de um agiota — embora preferisse a expressão distância estratégica. Passou dois meses na comunidade. Cantou, tocou violão, encantou crianças, irritou adultos, improvisou negócios, fez todo mundo parar para ver o que faria. Era caos com melodia. Numa noite, depois que todos riram de uma história certamente inventada, Miguel o encontrou sozinho, olhando o rio.

— Tu tá fugindo mesmo de quê? — perguntou Miguel.

João Paulo abriu o sorriso automático.

— De oportunidade ruim.

— Sério.

O sorriso falhou por um instante.

— De mim, talvez.

Foi tão rápido que quase não existiu. Depois voltou à personagem.

— Mas semana que vem eu resolvo. Vou entrar num clube de investimentos.

Seu Pedro, que passava perto, olhou para ele.

— Telezé?

João Paulo abriu os braços.

— Falta visão.

E foi embora dias depois, amado e preocupante, como sempre.

O casamento de Miguel e Isabele veio simples: civil em Manaus, papel, assinatura, Teresa impecável como testemunha, João Paulo milagrosamente bem vestido, o vereador performando importância institucional.

A celebração verdadeira foi na comunidade. Vieram mais pessoas do que cabia na ideia original. Trouxeram comida, farinha, peixe assado, galinha, bolo de macaxeira que Dona Luzia jurou que não tinha feito mas que claramente tinha. Seu Pedro tocou um forró que Miguel nunca havia escutado antes e provavelmente ninguém mais sabia o nome. Houve violão, risos, criança dormindo no colo de adulto que não era parente. Isabele dançou sem tirar os olhos de Miguel uma vez sequer — não por ciúme, mas porque havia ali algo que ela não queria perder para distração.

Jesuína abraçou Miguel e disse baixo:

— Agora faz durar. Casamento não é festa que termina. É farinha que tem que dar conta todo dia, até quando ninguém tá com fome de festa.

Valia mais que discurso.

Parte III — A Permanência


Capítulo VII — O retorno dos que partiram

Os anos se instalaram e trouxeram os filhos: Ana, de olhar grave e observador, e Gabriel, inquieto e teimoso.

Miguel aprendeu a rotina pesada do rio e da farinha — e aprendeu sobretudo que rotina não é o oposto da vida, mas sua estrutura. Havia manhãs em que acordava antes de todos, ainda escuro, e ficava um momento imóvel ouvindo o rio e o sono dos filhos e a respiração de Isabele, e sentia uma coisa estranha que levou tempo para nomear: paz. Não a paz da ausência de problema — porque problemas nunca faltaram —, mas a paz de saber exatamente onde estava e ter escolhido estar ali.

Isabele tornou-se centro silencioso da casa, com a competência feroz que Miguel já conhecia. Seu Mundico virou avô barulhento, Dona Luzia especialista em opinião sobre criação infantil — especialmente quando não era solicitada —, Jesuína bisavó de olhar atento e corpo cada vez mais fino. Miguel aprendeu pesca de verdade, farinha de verdade, dinheiro pequeno de verdade. Seu Pedro passou a tratá-lo não mais como aprendiz tolerável, mas como igual funcional — o que no idioma emocional daquele homem era declaração pública de respeito.

No sexto ano, Nonato voltou. O ex-marido de Isabele chegou com a gramática previsível do arrependimento tardio: maturidade, erro, mudança, recomeço, família. Mas havia por trás do discurso uma história que a comunidade logo soube em partes: o negócio em Manaus havia afundado. Um pequeno comércio que não pagou as dívidas, ferramentas vendidas, bens liquidados às pressas, aluguel atrasado por meses. A cidade o havia devolvido sem cerimônia. Como complicação adicional, era primo de Seu Pedro, e a vida real raramente se contenta com conflitos simples. Miguel descobriu em si uma hostilidade primitiva que o envergonhou. Não queria apenas afastá-lo; queria anulá-lo. Na primeira vez que o viu conversando com Isabele perto do flutuante, sentiu o corpo avançar antes do juízo, e teria feito besteira se Seu Pedro não tivesse encostado a mão firme no seu ombro.

— Faz besteira não — disse Seu Pedro.

— Difícil.

— Eu sei — disse ele, como quem sabia também por sangue.

Depois, com secura:

— Sangue é sangue. Mas vergonha também.

Nonato insistiu, não ostensivamente — o que teria facilitado a rejeição —, mas daquela forma socialmente plausível que irrita mais. Trazia um saco pequeno com objetos antigos de Isabele e um cansaço que tentava vender como arrependimento. Pedia conversa, falava que errara, que homem amadurece, que ninguém pode ser condenado para sempre pelo pior dia. Miguel odiava sobretudo o fato de parte daquilo soar razoável. Pessoas perigosas nem sempre mentem o tempo inteiro; às vezes dizem verdades escolhidas para esconder a verdade maior.

Miguel cometeu então o erro clássico dos homens inseguros: começou a agir como se Isabele fosse território ameaçado, não pessoa autônoma. Perguntava demais, observava demais, calava errado. Ela o corrigiu numa tarde, dentro da casa, quando Ana e Gabriel brincavam no quintal.

— Eu não sou prêmio de disputa entre homens.

— Eu sei.

— Não sabe, não. Tu tá com medo dele porque ele conhece uma parte da minha vida que tu queria apagar. Eu existia antes de tu chegar, Miguel. O que ele fez faz parte de quem eu sou porque eu sobrevivi.

Miguel recebeu aquilo como tapa.

Foi Jesuína quem colocou as coisas em palavra final, não decidindo por eles, mas tirando a mentira do centro. Chamou Miguel primeiro.

— Tu tá com medo. Medo dela escolher errado. Ou escolher ele.

Miguel baixou os olhos.

— Amor não é vigia. Se ela quiser ir, tu já perdeu antes.

— E se eu perder?

Jesuína olhou para ele com uma dureza doce.

— Aí tu sofre como gente. Mas não vira dono antes de virar viúvo de coisa viva.

Depois falou com Isabele. Ninguém soube exatamente o conteúdo, e talvez certas sabedorias femininas percam força quando excessivamente explicadas. No dia seguinte Isabele foi sozinha encontrar Nonato. Miguel quis acompanhá-la. Ela recusou.

— Eu resolvo minha vida.

Encontrou-o no flutuante antes do movimento maior. Nonato estava com camisa bem passada, calor no rosto e o saco pequeno nas mãos, como homem que ensaiara a própria humildade diante de um espelho.

— Trouxe umas coisas tuas — disse ele.

Isabele reconheceu uma fotografia antiga, uma toalha bordada por sua mãe e um pente de madeira que julgara perdido. Aquilo doeu mais do que presente deveria doer.

— Tu guardou isso?

— Guardei muita coisa.

— Menos o casamento.

Nonato baixou a cabeça.

— A cidade me engoliu, Isabele.

— A cidade engole muita gente.

— Tu acha que foi fácil pra mim? Perdi o negócio, vendi o que tinha, dívida em cima de dívida. Teve mês que eu não sabia se ia conseguir pagar o aluguel. Teve mês que não paguei.

Isabele ficou imóvel.

— Tu perdeu depois, Nonato. Primeiro tu largou.

Ele respirou fundo, ferido mais pela precisão do que pela dureza.

— Eu achei que tava indo buscar uma vida melhor.

— Todo mundo acha.

— Quando percebi, já tava longe demais.

— Tu não ficou longe. Tu escolheu ficar longe.

Nonato apertou o saco nas mãos. Havia nele arrependimento, mas também uma vontade clara de transformar a própria queda em desculpa para o abandono. Se tivesse voltado no auge, talvez nem lembrasse o caminho. Agora voltava porque Manaus lhe negara abrigo — e isso era uma verdade que nenhuma palavra bonita escondia.

— Eu fui feliz contigo.

Isabele sentiu a frase entrar como faca limpa.

— Eu também fui. E depois fiquei sozinha carregando a vergonha de uma felicidade que tu abandonou escondido.

Ele olhou para a água, depois para ela.

— Tu ama ele?

— Amo. Ele é meu marido, pai dos meus filhos e homem com quem eu escolhi envelhecer. Mas presta atenção: mesmo que Miguel não existisse, eu não recomeçaria contigo. Eu não vim escolher entre dois homens.

Nonato ficou calado.

— Tu não veio buscar tua família, Nonato. Veio buscar tua absolvição. Tu não é uma desgraça inteira — talvez fosse mais fácil se fosse. Mas a parte boa que tu teve não te dá direito de entrar na vida que eu construí como se ainda houvesse uma pergunta entre nós.

Ele assentiu uma vez, como quem finalmente escutara aquilo que vinha tentando negociar.

— Fica com as coisas.

— Fico. São minhas.

No dia seguinte, antes do sol alto, Nonato embarcou. Levava pouca coisa. Pela primeira vez em muitos anos, parecia menor do que quando chegara. Seu Pedro observou a voadeira desaparecer na curva do rio.

— Vai dar certo pra ele? — perguntou Miguel.

Seu Pedro demorou para responder.

— Não sei.

E depois:

— Mas agora o problema voltou a ser dele.

Isabele voltou para casa no fim da tarde, cansada, mas inteira. Quando Miguel perguntou o que Jesuína dissera, ela sorriu daquele jeito raro.

— Que homem que abandona uma vez aprende a abandonar melhor na segunda.

— E tu?

Ela aproximou-se com tranquilidade.

— Eu já tinha escolhido. Só precisava te lembrar disso.


Capítulo VIII — A vida é uma velha louca

A velhice de Jesuína não chegou como tragédia. Chegou como subtração. Passos menos firmes, respiração mais curta, mãos mais finas, pausas onde antes havia continuidade. Miguel passou a vigiá-la como se pudesse impedir o inevitável pela atenção — coisa ridícula e profundamente humana.

Numa tarde em que a casa parecia suspensa, crianças dormindo, Teresa fingindo ler, Francisco cochilando sem admitir, Rosária organizando objetos que não precisavam de organização, Dona Luzia temporariamente econômica, Jesuína chamou Miguel com um gesto. Ele sentou perto. Depois mais perto. Homem feito reencontrando menino.

Ela ficou longo tempo em silêncio. O silêncio dos velhos sábios nunca é vazio; é excesso.

— Tu anda com medo.

Miguel abriu a boca. Ela ergueu um dedo.

— Homem novo acha que negar medo faz medo desaparecer. Não faz.

Silêncio.

— Quando eu era nova, achava que a vida ia me perguntar se eu tava pronta. Nunca perguntou. A vida não consulta ninguém. Não marca reunião. Não espera maturidade. Ela simplesmente acontece.

Depois respirou fundo.

— A vida é uma velha louca, Miguel. Uma velha completamente doida. Dá coisa boa pra quem não pediu. Arranca coisa de quem implorou pra ficar. Te dá filho. Te tira marido. Te traz amor tarde. Te leva gente cedo. Te humilha. Depois te consola como se não tivesse sido ela.

Dona Luzia soltou pequeno som de aprovação.

— A gente cresce ouvindo frase pronta. Que amor vence tudo, que tempo cura tudo, que basta querer, que quem merece encontra. Besteira. Nem toda frase antiga é sabedoria. Algumas são só maquiagem em cima do desespero.

Teresa abaixou o livro.

— Amor não vence tudo. Se vencesse, não existia viúva, não existia abandono, não existia filho enterrando pai, não existia Teresa, nem Isabele, nem eu. Amor não vence tudo. Mas às vezes faz a gente suportar o que venceu.

O silêncio se adensou.

— Tempo também não cura. Tempo só passa. Quem cura, quando cura, é o trabalho que a pessoa faz dentro do tempo. Ou não faz. Tem gente que envelhece sem amadurecer. Só fica com dor no joelho, remédio na bolsa e opinião forte.

Dona Luzia murmurou:

— Eu continuo ouvindo.

Jesuína quase sorriu.

— A vida também não recompensa automaticamente quem é bom. Teu avô era bom e morreu cedo. Muito homem ruim vive até virar castigo pros outros. Justiça não é caixa eletrônico. Tu não põe bondade e recebe recompensa. O que existe é escolha e consequência, quase sempre misturadas.

Virou-se para Miguel.

— Teu pai escolheu estabilidade. Pagou. Tua mãe escolheu futuro. Pagou. Teresa escolheu inteligência. Pagou. João Paulo escolheu liberdade demais, tá pagando parcelado até hoje.

Até Teresa riu, pequeno e dolorido.

— Tu escolheu ficar. Vai pagar também. Mas pelo menos é conta tua. O inferno não é sofrer. O inferno é sofrer por uma vida que nem foi tua escolha.

Miguel sentia o coração apertado.

— Amor não é sentir bonito. Isso é começo. Começo não sustenta casa. Amor é levantar mesmo cansado, dividir dinheiro curto, engolir orgulho, falar menos quando sabe que a palavra vai ferir, continuar respeitando a mesma pessoa quando o encanto já virou rotina. É febre de menino. Telhado vazando. Conta. Preocupação. E ainda assim escolher ficar.

Isabele chorava discretamente. Jesuína viu.

— Amor não é fogo. Fogo sobe rápido e acaba. Amor é brasa. Precisa cuidado, lenha, paciência, responsabilidade.

Olhou para Miguel.

— Homem não é quem fala grosso, nem quem manda, nem quem ganha mais, nem quem mete medo, nem quem coleciona mulher. Isso é menino fantasiado. Homem é quem permanece, quem sustenta consequência, quem protege sem possuir, quem escuta sem virar covarde, quem trabalha, quem pede perdão, quem não foge de si.

Miguel já chorava.

— Teu erro quando chegou aqui foi achar que precisava virar outro homem. Não. Tu só precisava virar tu inteiro.

Depois olhou em volta: casa, filhos, irmãs, filhos dos filhos, história, desgaste, permanência.

— Tempo não é relógio. Tempo é essa bagunça, essa comida, esses problemas, essa alegria, essa dor, meu corpo acabando, teu filho crescendo, a casa envelhecendo. Isso é tempo. O povo tem medo da morte porque vive como se a vida fosse ensaio. Eu não.

Miguel reagiu:

— Não fala assim.

Ela olhou com ternura.

— Telezé.

Risos atravessaram lágrimas.

— Vive de um jeito que tua ausência não seja só vazio. Seja continuação. Porque no fim, Miguel, a vida é uma velha louca. Mas o tempo…

Olhou para os netos, para a casa, para tudo.

— O tempo é a gente acontecendo.


Capítulo IX — Quando a casa aprende a respirar diferente

Jesuína morreu numa manhã simples, sem espetáculo. Na noite anterior, havia segurado a mão de Miguel e pedido para Isabele cuidar dele quando ele "virasse menino de novo". De manhã, ela simplesmente não respirava mais.

O silêncio tomou as tábuas da casa; até Dona Luzia emudeceu. Teresa veio primeiro, sem marido, sem verniz. João Paulo apareceu rápido demais, pela primeira vez abandonando alguma aventura sem terminar. Francisco e Rosária vieram de Manaus para o funeral, e ali, entre dor e reunião familiar, outra mudança começou.

Francisco chegou mais velho do que Miguel se permitira perceber. Funeral faz isso: não apenas leva alguém — revela a idade dos sobreviventes. Rosária chorava como filha, não como mãe nem esposa. Aquilo enterneceu Miguel profundamente; ver a própria mãe voltar a ser menina pela perda da mãe.

Nos dias seguintes, quando a casa ainda aprendia a existir sem Jesuína, houve uma tarde em que Rosária entrou sozinha na casa de farinha. Ficou parada um longo momento, sem trabalhar, apenas olhando para as marcas na madeira. Passou a mão na prensa, depois no forno frio. Tentou lembrar a voz da mãe. Lembrou primeiro das mãos. Saiu sem dizer nada a ninguém.

Dias depois, Francisco sentou-se na varanda com o filho. Sem assunto aparente — o que nele já significava assunto.

— Eu acho que acabou.

— O quê?

— Manaus. A correria. Empresa. Essas coisa. A vida toda correndo atrás de aposentadoria pra descobrir que o corpo chegou antes.

Miguel ficou quieto.

— Eu passei a vida achando que depois eu descansava, depois eu vivia. Tua avó morreu, eu vi tua mãe chorando igual menina, vi essa casa cheia de gente, teus filhos correndo aqui, e fiquei pensando: depois quando? Acho que acabou meu tempo de fingir que a vida tá me esperando. A gente volta de vez.

Rosária apareceu atrás, ouvindo sem surpresa — porque aquilo claramente já fora conversado.

— Tua avó partiu, mas acho que deixou a gente sendo chamado de volta.

Miguel chorou de novo, mas diferente. Não apenas de perda. De reorganização.

Meses depois, Francisco aposentou-se formalmente e tornou-se um perigo doméstico, organizando ferramentas e inventando reformas no terreno. Rosária assumiu as funções vazias da cozinha com cuidado silencioso. Havia dias em que Miguel a via parada diante do forno da farinha — não trabalhando ainda, apenas lembrando. Depois ela voltava a mexer nas coisas, como se dissesse ao passado que agora podia tocá-lo sem raiva.

Teresa se divorciou do vereador e, livre da armadura impecável, tornou-se quase leve. Numa noite, sentada com Miguel, disse:

— Passei a vida tentando entender tudo. Descobri que entender não impede ninguém de errar.

— Vai ficar bem?

Ela olhou para dentro da casa, para Ana dormindo atravessada na rede, para Gabriel tentando resistir ao sono.

— Acho que vou ficar verdadeira. Bem talvez venha depois.

Certa madrugada, na beira do rio, sentados no casco de uma voadeira amarrada, João Paulo largou o violão de lado. O silêncio da noite era imenso, quebrado apenas pelo marulho miúdo da água batendo na madeira e pelo estalar das cordas esfriando. Lá no alto, as estrelas estavam todas acesas, do jeito que só ficam longe de luz de cidade, e o frio fino da madrugada começava a descer sobre o rio. Ele passou a mão pelo rosto, encarando o breu da água por longos minutos antes de aceitar a caneca de café frio que Miguel lhe estendia.

— Todo mundo acha que eu não penso — confessou, a voz mais baixa que o normal.

Miguel deu um gole no seu café, esperando o tempo do irmão.

— Eu penso se estraguei minha vida.

O silêncio voltou, pesado, correndo junto com a correnteza. Miguel olhou para o perfil do irmão, o carisma cansado sob a luz da lua, e colocou a mão firme no seu ombro:

— Talvez ainda dê tempo.

João Paulo sorriu torto, sem olhar de volta:

— Tu virou otimista.

— Não. Virei teu irmão mais velho por cinco minutos.


Capítulo X — A farinha esquecida

Os anos seguintes passaram mudando o rosto das crianças e dando peso novo às palavras antigas. Com o tempo, ninguém mais sabia dizer quando Dona Luzia e Seu Mundico tinham deixado de ser dois para virar uma coisa só. Francisco e Rosária viviam sem a pressa do relógio industrial, ensinando os netos a usar o martelo e o formão. Miguel tornou-se o homem procurado para resolver os problemas da comunidade; quando Seu Pedro pediu sua opinião antes de lançar a rede, Miguel entendeu o tamanho do seu lugar ali.

Numa manhã de sol filtrado pela fumaça, Miguel levou Gabriel para a casa de farinha. O menino limpava o suor da testa e reclamava do calor e do esforço da prensa. Isabele cruzou a porta trazendo uma garrafa de água e sorriu da cena.

— Ele tá reclamando demais — comentou Miguel.

— Filho teu.

Gabriel parou o braço no forno:

— Por que fazer farinha tem que dar tanto trabalho, pai?

A pergunta atravessou as décadas, trazendo o eco de Jesuína no forno antigo. Miguel sorriu, repetindo a herança:

— Porque quase tudo que presta dá trabalho. O resto é facilidade, e facilidade não dura.

Mais tarde, a chuva mansa suspendeu o calor da tarde. Miguel sentou-se nos degraus de entrada da casa, observando o rio voltar ao silêncio. Isabele sentou-se ao lado dele, limpando uma bacia de feijão com sua atenção prática e concentrada. Ana, já moça, acomodou-se perto dos joelhos do pai, olhando as primeiras gotas tocarem a água escura.

— Pai, a bisa tinha medo de morrer? — perguntou Ana, com a gravidade da mãe.

Miguel passou a mão pelos cabelos da filha, os olhos fixos na linha do horizonte onde o rio encontra a mata. Isabele parou as mãos no feijão por um segundo, escutando.

— Acho que não, filha.

— Por quê?

— Porque ela viveu de um jeito que não acabou nela.

A menina ponderou o silêncio da tarde, vendo os pingos desenharem círculos na superfície do Negro.

— Eu não entendi.

Miguel sorriu, puxando a filha mais para perto de seu ombro.

— Ainda bem.

— Por quê?

— Porque tem coisa que a gente guarda antes de entender.

Ana calou-se, aceitando o mistério da resposta. Isabele deixou a bacia de lado, aproximou-se e colocou a mão firme sobre a de Miguel — um gesto pequeno, doméstico e definitivo de permanência. O vento trouxe o cheiro de terra molhada e o som do rio correndo calmo em frente à varanda. Gabriel saiu pela porta, sentando-se no último degrau, completando o desenho da varanda.

Ana olhou para os pais e para a estrutura de madeira talhada que sustentava o teto:

— E o tempo, pai?

Miguel sentiu a frase ganhar corpo em sua boca, vinda do baú, do forno, das vigas de Auvino e do olhar de Jesuína. Ele apertou os dedos de Isabele, olhou para os filhos e respondeu:

— O tempo é a gente acontecendo.

Apêndices

Apêndice A — Nota cultural do autor

A cultura cabocla amazônica como patrimônio vivo

A Amazônia costuma ser apresentada por suas grandes dimensões: seus rios imensos, sua floresta vasta, sua importância para o mundo. Mas existe também uma Amazônia menor, íntima, cotidiana — a Amazônia das famílias, das cozinhas, das casas de farinha, das conversas na varanda, dos remédios ensinados pelos mais velhos, dos barcos que levam gente, notícia e sustento.

Este livro nasce dessa Amazônia vivida. Não pretende explicar toda a região, nem transformar a cultura cabocla em imagem parada ou folclore distante. A cultura cabocla amazônica é movimento, encontro e permanência. Nasce do contato entre povos indígenas, migrantes nordestinos, descendentes de europeus e africanos, comunidades ribeirinhas e famílias que aprenderam a viver com a água, a mata, a cheia, a vazante, o trabalho e a memória.

A casa de farinha ocupa lugar especial nesse universo. Ela não é apenas um espaço de produção. É lugar de encontro, partilha, transmissão de saberes e resistência cultural. Ali se aprende a transformar mandioca em alimento, mas também se aprende paciência, cuidado, cooperação e respeito pelo tempo das coisas. Na farinha, há trabalho. No trabalho, há família. Na família, há história.

Muitos saberes amazônicos não foram preservados em livros. Foram guardados em gestos: o jeito de plantar, pescar, navegar, construir, cozinhar, benzer, cuidar, contar histórias e conviver com a floresta. São conhecimentos que passam de geração em geração, muitas vezes sem discurso, apenas pela convivência com quem sabe fazer.

Por isso, este livro também é um convite. Ouça os mais velhos. Pergunte. Aprenda os nomes das coisas, dos rios, das plantas, dos lugares e das histórias. Preserve as memórias da sua família. Valorize os saberes simples, porque muitos deles sustentaram vidas inteiras antes de receberem qualquer reconhecimento.

Culturas sobrevivem graças aos que se recusam a esquecer.

Apêndice B — Glossário de termos presentes no romance

Palavras carregam histórias. Este glossário reúne apenas termos que aparecem no romance ou em suas páginas iniciais, para ajudar o leitor a compreender melhor o universo cultural de A Farinha Esquecida. Não pretende encerrar significados; serve como porta de entrada para a memória, a fala e os modos de vida presentes na narrativa.

Farinha

Produto da mandioca ralada, prensada e torrada. É base da alimentação amazônica e parte essencial da cultura ribeirinha. No livro, a farinha também simboliza memória, trabalho, vergonha, retorno e reconhecimento.

Mandioca

Raiz cultivada há séculos por povos indígenas e incorporada à alimentação brasileira. No romance, aparece ligada à casa de farinha, ao trabalho das mãos e à transmissão de saberes entre gerações.

Macaxeira

Nome comum, em muitas regiões do Norte e do Nordeste, para a mandioca de mesa, consumida cozida, frita ou em preparos familiares. No livro, aparece como alimento simples das manhãs na casa de Jesuína.

Tipiti

Instrumento trançado com fibras vegetais, usado para prensar a massa da mandioca na produção da farinha. No romance, aparece como parte da memória material da casa de farinha.

Beiju

Preparação feita a partir da massa ou goma de mandioca, assada em forma de disco. No livro, aparece como alimento de infância e como parte do cotidiano da casa de Jesuína.

Pupunha

Fruto da pupunheira, muito consumido cozido, especialmente com café. No romance, aparece entre os alimentos simples e afetivos da manhã amazônica.

Pacovã

Variedade de banana muito presente na alimentação amazônica, usada cozida, frita ou em preparos familiares. No romance, aparece como parte das manhãs simples da casa de Jesuína.

Tucumã

Fruto amazônico muito consumido em Manaus e associado ao cotidiano alimentar da região. No romance, aparece no humor empreendedor de João Paulo, em uma de suas ideias improváveis.

Tambaqui

Peixe de água doce muito apreciado na culinária amazônica. No livro, aparece associado à convivência familiar, ao humor de Seu Mundico e às refeições ribeirinhas.

Pirarucu

Peixe amazônico de grande porte, importante na alimentação e na cultura regional. No romance, aparece como uma das referências culinárias da Manaus vivida por Miguel.

Tucunaré

Peixe de água doce valorizado na culinária regional. No livro, aparece como marca da presença amazônica que sobrevive mesmo dentro da cidade.

Jaraqui

Peixe muito popular na alimentação amazonense. Em Manaus, o ditado "quem come jaraqui não sai mais daqui" expressa, com humor, a força de pertencimento associada à cidade.

Tacacá

Preparação tradicional amazônica vendida em cuias, muito presente no cotidiano urbano de Manaus e de outras cidades da região Norte. No livro, aparece na cena da Ponta Negra.

Açaí

Fruto amazônico muito consumido na região, em diferentes formas e costumes locais. No romance, aparece na paisagem alimentar da Ponta Negra.

Ribeirinho

Morador das margens dos rios. Sua vida costuma ser marcada pela pesca, pela navegação, pela relação com a floresta, pela água e pelos ciclos do rio.

Caboclo e cabocla

Termos usados, em muitos contextos amazônicos, para se referir a pessoas ligadas à cultura local formada pelo encontro de povos indígenas, europeus, africanos, migrantes e comunidades ribeirinhas. No romance, aparecem associados à identidade, à origem e à dignidade amazônica.

Soldado da Borracha

Trabalhador recrutado durante a Segunda Guerra Mundial para extrair borracha na Amazônia. No livro, essa memória aparece por meio de Auvino, avô de Miguel, e revela a distância entre a propaganda oficial e a realidade dura da floresta.

Arigó

Termo usado historicamente de forma depreciativa para se referir a muitos trabalhadores nordestinos levados para a Amazônia durante o ciclo da borracha. No romance, Jesuína recorda a palavra para mostrar a humilhação sofrida por esses homens.

Látex

Seiva extraída da seringueira e usada na produção da borracha. No romance, aparece nos folhetos de propaganda que Miguel encontra ao conhecer melhor a história de Auvino.

Casa de farinha

Local onde a mandioca é processada para produzir farinha. Mais do que espaço de trabalho, é lugar de encontro, aprendizado, partilha e transmissão cultural. No livro, torna-se símbolo de retorno e reconstrução.

Voadeira

Embarcação motorizada, leve e rápida, muito usada em deslocamentos por rios e igarapés. No romance, torna-se parte do reaprendizado de Miguel diante da água.

Malhadeira

Rede de pesca usada para capturar peixes. Exige conhecimento da água, da correnteza, do lugar e do tempo certo. No livro, marca a passagem de Miguel da intenção para o aprendizado prático.

Flutuante

Construção sobre a água, comum em regiões ribeirinhas. Pode funcionar como moradia, comércio, apoio para pesca, venda de gelo, mantimentos e outros serviços. No romance, é ligado a Seu Mundico e à vida comunitária.

Cheia

Período em que o nível dos rios sobe e altera caminhos, casas, trabalho e deslocamentos. No livro, a cheia aparece como força natural que organiza a vida e exige adaptação.

Carapanã

Nome regional para mosquito. Sua presença é parte incômoda e muito conhecida da vida amazônica, aparecendo no romance como detalhe concreto da experiência local.

Bubuia

Expressão regional usada para indicar estar à toa, boiando, descansando ou observando sem pressa. No livro, aparece quando Miguel observa a vida da Ponta Negra.

Égua

Interjeição muito usada no Norte do Brasil, especialmente para expressar espanto, surpresa, indignação ou intensidade. No romance, aparece na fala urbana e popular de Manaus.

Telezé

Forma popular e bem-humorada de dizer "tu é leso?", usada para apontar ingenuidade, distração ou falta de juízo. No livro, aparece em falas de convivência e provocação.

Apêndice C — Memória, floresta e silêncio

Os Soldados da Borracha e a vida nos seringais durante a Segunda Guerra Mundial

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil precisou ampliar a produção de borracha para atender aos aliados. Para isso, milhares de trabalhadores — muitos deles nordestinos pobres — foram recrutados e enviados para seringais amazônicos. A propaganda da época prometia trabalho, honra, salário e contribuição à vitória. A realidade, porém, foi muito mais dura.

Muitos desses homens deixaram suas famílias, viajaram longas distâncias de trem, navio e barco, e chegaram a uma floresta que desconheciam. Foram chamados de Soldados da Borracha, mas nem sempre receberam proteção, estrutura ou reconhecimento à altura desse nome. Enfrentaram malária, isolamento, fome, dívidas, animais, solidão e saudade. Muitos morreram longe de casa. Outros permaneceram na Amazônia, formaram família e ajudaram a construir novas comunidades.

O trabalho começava cedo. O seringueiro caminhava por longas trilhas na mata, abrindo cortes nas seringueiras para recolher o látex. Depois vinha o processo de defumação da borracha, realizado em condições difíceis, com alimentação simples e moradias precárias. O cotidiano exigia força física, resistência emocional e uma coragem silenciosa que raramente aparecia nos cartazes oficiais.

A história dos Soldados da Borracha não deve ser lembrada apenas como contribuição patriótica. Ela também revela abandono, promessas quebradas e esquecimento institucional. Muitas famílias guardaram essa memória sem monumentos, apenas em nomes, histórias contadas aos filhos, fotografias antigas, objetos guardados e silêncios difíceis.

Em A Farinha Esquecida, essa memória aparece por meio de Auvino, avô de Miguel. Ele representa os homens que vieram de longe, sofreram na floresta e, apesar de tudo, deixaram casa, família e descendência. Sua história não é apenas passado; é parte da formação de muitas famílias amazônicas.

Nem toda contribuição deixa monumentos. Muitas histórias permanecem apenas na memória das famílias. Por isso, contar também é preservar.

Memória é resistência.

Contar é preservar.

Apêndice D — Cronologia histórica

Borracha, gente e cultura na Amazônia

Antes dos europeus — Povos indígenas viviam, cultivavam e navegavam na Amazônia há milhares de anos, em profunda relação com a floresta e os rios.

Séculos XVII–XIX — A colonização e o comércio transformam a região. O encontro de povos indígenas, europeus, africanos e migrantes dá origem à cultura cabocla amazônica.

Final do século XIX — Ciclo da borracha: Manaus e Belém prosperam com a exploração do látex. A Amazônia se integra ao mercado mundial e vive um período de grande riqueza.

1876 — Sementes da seringueira são levadas para outros países (Inglaterra e colônias asiáticas). A produção estrangeira inicia a competição que levará ao declínio do ciclo.

Décadas de 1920–1930 — Comunidades vivem principalmente da agricultura familiar, da pesca e do extrativismo. A farinha de mandioca permanece como base da alimentação.

1942 — A Segunda Guerra Mundial aumenta a demanda internacional por borracha. O Brasil precisa retomar e ampliar a produção.

1943 — Início do recrutamento dos Soldados da Borracha. Milhares de nordestinos deixam suas famílias em busca de trabalho e melhores condições de vida.

1945 — Fim da guerra. A demanda por borracha diminui, mas muitos trabalhadores permanecem na Amazônia e constroem novas comunidades.

Décadas seguintes — Descendentes dos trabalhadores e das populações locais constroem as comunidades que existem até hoje, mantendo tradições, saberes e modos de vida.

Final do século XX — A urbanização e as novas tecnologias aproximam as novas gerações da cidade. Muitas tradições e saberes correm o risco de se perder.

Século XXI e hoje — Valorização da memória cultural e da identidade amazônica. Histórias, saberes e experiências continuam sendo contados, preservados e reinventados.

A história da Amazônia é feita de ciclos, encontros e resistência. Cada tempo deixa marcas na floresta, nos rios e nas pessoas.

Ao leitor — Uma mensagem para o caminho

Toda família guarda histórias. Algumas são lembradas em fotografias; outras permanecem vivas apenas na memória de quem as ouviu dos mais velhos.

A Amazônia é feita dessas histórias: de rios que ensinaram caminhos, de florestas que deram sustento, de gente que trabalhou, acreditou, sofreu, amou e transformou a terra em lar.

Muitas dessas histórias não serão registradas em documentos. Outras desaparecerão quando ninguém mais as contar. Uma cultura só continua viva quando encontra novos ouvidos e corações dispostos a guardar.

Se este livro despertou curiosidade, reconhecimento ou gratidão, então ele já encontrou um de seus caminhos: ajudar a manter viva a memória do nosso povo, da nossa floresta e do nosso tempo.

Que o leitor siga adiante levando estas histórias consigo e as repasse como quem entrega uma semente boa para continuar florescendo em outras vidas.

A memória é o que nos conecta.

Preservá-la é o que nos mantém.

— Marcus André Lima de Lima

Sobre o autor

Marcus André Lima de Lima, que assina literariamente como Marcus Lima, é autor interessado nas relações entre memória, linguagem, infância, pertencimento e identidade amazônica. Sua escrita nasce de uma experiência pessoal marcada pelo deslocamento, pela herança familiar ligada à região Norte e pela observação dos contrastes entre a vida urbana e as raízes ribeirinhas.

Ainda criança, Marcus viveu uma travessia importante ao sair de Porto Velho, em Rondônia, para crescer em Manaus, no Amazonas, acompanhado de sua mãe e de seus irmãos. Essa mudança, comum a tantas famílias amazônicas em busca de novas oportunidades, deixou marcas profundas em sua forma de olhar o mundo: de um lado, a cidade grande, com seu barulho, suas promessas e suas exigências; de outro, a memória das origens, da família, dos rios, da oralidade e dos modos de vida que resistem ao esquecimento.

A história familiar do autor também se relaciona com episódios importantes da formação amazônica. Pelo lado materno, carrega a lembrança de Leovegildo Barata, ligado à experiência histórica dos Soldados da Borracha em Autazes — homens que enfrentaram a floresta, a doença, o abandono e as falsas promessas de reconhecimento. Pelo lado paterno, sua memória familiar remete ao universo dos seringais e à figura de Francisco Vieira Lima, soldado da guarda, presença que inspira no autor a atenção aos temas da dignidade, da resistência, da firmeza familiar e da permanência.

Em seu romance A Farinha Esquecida, Marcus Lima transforma essas referências afetivas e históricas em ficção. A obra acompanha Miguel, um homem que deixa a infância ribeirinha, cresce em Manaus e, anos depois, retorna às origens ao reencontrar a avó, Dona Jesuína. A partir desse retorno, o romance trata de temas como êxodo, vergonha da origem, trabalho, amor maduro, ancestralidade e reconstrução interior.

Sem pretender falar por toda a Amazônia, o autor escreve a partir de um lugar íntimo: o da memória familiar, da escuta dos mais velhos e da tentativa de preservar, pela literatura, aquilo que muitas vezes desaparece sem registro. Sua prosa busca valorizar a dignidade das pessoas comuns, os saberes transmitidos em silêncio, a força das mulheres da família e a permanência de um modo de vida que continua existindo mesmo quando parece esquecido.

Além da ficção, Marcus também se dedica à produção de materiais educativos, como o Caderno de Caligrafia — Animais Brasileiros, obra voltada à infância que une treino de escrita, leitura, ilustração e valorização da fauna nacional. Assim como em sua literatura, há nesse trabalho uma preocupação com formação, linguagem e preservação do vínculo entre criança, palavra e mundo real.

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