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Os Espelhos Vazios

Por Marcus Lima

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Sinopse

No casarão de Dona Juracy, em Adrianópolis, heranças antigas, vaidades modernas e silêncios familiares começam a rachar diante de Isaías e Fabíola. Entre memória, aparência e pertencimento, a história observa o que acontece quando uma família percebe que seus espelhos já não devolvem respostas.

Sumário
  1. Capítulo 1 — A varanda de Adrianópolis
  2. Capítulo 2 — O jardineiro que escuta
  3. Capítulo 3 — A menina da tela
  4. Capítulo 4 — As velhas fotografias
  5. Capítulo 5 — A falta de luz
  6. Capítulo 6 — Jorge Teixeira
  7. Capítulo 7 — O manifesto
  8. Capítulo 8 — A festa da Ponta Negra
  9. Capítulo 9 — A discussão
  10. Capítulo 10 — O vazamento
  11. Capítulo 11 — A tentativa de salvar a imagem
  12. Capítulo 12 — O quarto sem plateia
  13. Capítulo 13 — O susto
  14. Capítulo 14 — O bairro que ela nunca quis conhecer
  15. Capítulo 15 — Terra limpa
  16. Capítulo 16 — Perto do Iranduba
  17. Epílogo — A estrada
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Capítulo 1 — A varanda de Adrianópolis

O casarão de Dona Juracy não parecia uma casa.

Parecia uma lembrança.

Ficava em Adrianópolis, numa rua onde as árvores ainda faziam uma sombra grossa, antiga, alheia à pressa do resto de Manaus. As paredes grossas guardavam um frescor antigo, o frescor do tempo, não de aparelho nenhum. O pé-direito alto, os janelões de madeira, os ladrilhos gastos e a varanda larga davam ao lugar a aparência de uma senhora que envelhecera sem pedir desculpas.

Dona Juracy Van der Meer gostava disso.

Aos noventa anos, já não tinha paciência para novidades que vinham embrulhadas em entusiasmo. Vira planos econômicos, presidentes, modas, terapias, religiões de ocasião, dietas milagrosas, casamentos desfeitos e filhos partindo para longe com a promessa de voltar no Natal.

Quase ninguém voltava no Natal.

A casa, sim.

A casa ficava.

Na parede da sala principal havia retratos de família: homens claros demais para aquele calor, todos de terno de linho, bigode disciplinado e olhos acostumados a mandar. Um bisavô holandês com nome difícil. Um avô que enriquecera no primeiro ciclo da borracha. Uma avó de vestido branco, segurando uma sombrinha, tratando a Amazônia como uma visita inconveniente. Atrás deles, em algumas fotografias, apareciam homens descalços, crianças indígenas, mulheres sem nome.

Juracy passara a vida inteira fingindo que não via isso.

Ou talvez visse.

Mas ver não é a mesma coisa que entender.

Naquela tarde, sentada na cadeira de vime, ela observava Isaías mexendo no canteiro dos antúrios. O rapaz tinha vinte e seis anos, ombros largos, pele acobreada pelo sol e mãos de quem conhecia a terra sem precisar romantizá-la. Misturava terra preta, casca de castanha quebrada e folhas secas com a concentração de quem prepara comida para alguém doente.

Juracy gostava de gente que sabia fazer alguma coisa.

Cada vez apareciam mais pessoas capazes de falar sobre tudo e incapazes de plantar uma cebolinha.

Isaías não.

Isaías fazia.

— Você nasceu sabendo mexer com planta? — perguntou ela.

Ele continuou misturando a terra.

— Nasci sabendo matar planta.

Juracy abaixou o livro.

— Como assim?

— Matei muita planta antes de aprender a cuidar.

A velha sorriu.

Gostava de respostas que vinham com derrota dentro. Eram mais confiáveis.

— Isso daria uma boa frase.

— Então a senhora pode usar. Só não diga que foi sua.

Juracy riu baixo.

Do outro lado da varanda, a porta de vidro correu com força.

Fabíola apareceu como quem entra num palco. Celular numa mão, copo térmico na outra, óculos escuros apesar da sombra. Tinha vinte e quatro anos, pele parda clara, cabelo cuidadosamente solto e uma beleza que parecia sempre pronta para ser fotografada. Havia nela uma luz, mas também uma vigília. Como se uma parte de seu corpo estivesse viva e a outra fiscalizando se a vida estava rendendo bem.

— Bom dia, meus amores! — disse para o telefone.

Não era bom dia para Juracy.

Não era bom dia para Isaías.

Era bom dia para uma multidão sem rosto.

— Hoje vou mostrar para vocês minha rotina real.

Juracy ergueu uma sobrancelha.

— Então vai ser um vídeo curto.

Fabíola ouviu.

— Vó.

— O quê?

— Eu trabalho.

— Eu também trabalhei.

— Não é a mesma coisa.

— Graças a Deus.

Isaías abaixou a cabeça para esconder o riso.

Fabíola percebeu.

— Está rindo de quê?

— De nada.

— Pode rir.

— Já parei.

— Então estava.

— Estava.

Ela balançou a cabeça, mas havia um quase sorriso escondido. Depois virou a câmera para o jardim.

— Gente, olha isso aqui. Esse jardim é simplesmente perfeito. E quem cuida dele é o...

Parou.

Um segundo.

Dois.

Olhou para Isaías com a expressão de quem procura uma senha esquecida.

— Como é teu nome mesmo?

O silêncio foi curto.

Mas alguns silêncios não precisam ser longos para ferir.

Isaías limpou a mão na bermuda.

— Isaías.

— Isso. Isaías. Ele é maravilhoso, cuida de tudo aqui.

Juracy percebeu.

Isaías também.

Fabíola, não.

Ela continuou andando de costas pela varanda, olhando para si mesma na tela. Pisou em um monte de folhas que Isaías acabara de juntar. As folhas se espalharam pelo ladrilho.

— Ops. Desculpa, tá?

Disse isso sem olhar para ele.

Isaías pegou a vassoura.

Juracy fechou o livro.

— Você mora no Jorge Texas, não é?

Isaías parou.

— Jorge Teixeira.

— Foi o que eu disse.

— Não foi não.

— Foi parecido.

Fabíola abaixou o celular.

— Vó, a senhora faz isso de propósito.

— Faço o quê?

— Chama o bairro dele de Jorge Texas.

— Porque toda semana aparece uma notícia ruim de lá.

— Toda semana aparece notícia ruim de Adrianópolis também.

— Não do mesmo jeito.

— Porque aqui os ladrões usam gravata.

Isaías virou o rosto para o canteiro. O riso escapou pelo nariz.

Juracy encarou a neta.

— Você anda muito espirituosa.

— Alguém precisa.

O vento mexeu nas folhas das mangueiras. Ao longe, um trovão resmungou como bicho velho. Manaus preparava uma de suas chuvas rápidas e furiosas.

Juracy voltou ao livro, mas a frase lhe ficou rondando.

Gostava de Isaías.

Muito.

Achava o rapaz educado, inteligente, firme. Uma pena ter nascido onde nasceu.

A frase surgiu naturalmente dentro dela.

Tão naturalmente que Juracy nem percebeu o tamanho do abismo.

Isaías continuou trabalhando.

Mas percebeu.

Como sempre percebia.

Quem nasce em certos lugares aprende cedo a ouvir o que os outros não dizem.

Fabíola voltou para a câmera, falando de maquiagem resistente ao calor amazônico. Milhares de pessoas assistiam. Comentavam. Mandavam corações. Pediam links. E Isaías, olhando de longe, pensou que aquela moça cercada de gente parecia mais sozinha do que qualquer pessoa que ele conhecia no Jorge Teixeira.


Capítulo 2 — O jardineiro que escuta

Isaías gostava das primeiras horas da manhã.

Antes dos ônibus lotados.

Antes do calor.

Antes das buzinas.

Antes das pessoas.

Naquele horário, Manaus ainda parecia lembrar que havia sido floresta. O Jorge Teixeira despertava devagar, com uma panela batendo em alguma cozinha, um rádio tocando brega ao longe e um galo atrasado anunciando um amanhecer que já tinha chegado.

Ele tomava café na pequena varanda de casa. Café forte, sem açúcar, o único luxo que se permitia diariamente.

A casa tinha dois quartos, telhado de fibrocimento, piso irregular e paredes pintadas de um azul que já fora alegre. Não era bonita. Mas era própria.

Dona Maria, sua mãe, fazia questão de repetir isso desde que ele tinha dez anos.

— Pode ser pequena, mas é nossa.

Talvez por isso Isaías nunca reclamasse da casa.

Dentro da cozinha, Dona Maria descascava macaxeira com dedos tortos pela artrite.

— Tu vai na casa da doutora hoje?

— Vou.

— Leva umas mangas para ela.

— Ela já tem mangueira no quintal.

— Rica gosta de ganhar presente igual pobre.

Isaías sorriu. A mãe tinha teorias para tudo.

Na sala, a televisão estava ligada em volume baixo. Uma apresentadora falava de famosos com a alegria profissional de quem anuncia tragédia sorrindo. De repente, Fabíola apareceu na tela, anunciando uma campanha nova.

Dona Maria apontou com a faca.

— Essa menina ainda vai adoecer.

— Por quê?

— Porque ninguém sorri desse jeito o tempo todo.

Isaías não respondeu.

Mudou de assunto.

Fazia isso com frequência.

Desde os dezoito anos, perdera a conta de quantos empregos tivera. Supermercado, depósito, loja de material de construção, transportadora, almoxarifado, oficina, condomínio. Sempre entrava bem, trabalhava bem e saía brigado.

Não era preguiçoso.

Muito pelo contrário.

O problema era outro.

Isaías não suportava injustiça nem ordem idiota. Uma combinação desastrosa para quem precisava de patrão.

Uma vez fora demitido por discutir com um gerente que humilhara uma operadora de caixa. Outra por defender um colega acusado de roubo sem prova. Outra por questionar desconto indevido. Outra porque simplesmente respondeu.

Dona Maria dizia:

— Teu problema é a língua.

O irmão dizia:

— Teu problema é o orgulho.

Juracy provavelmente diria alguma coisa sobre sombra, arquétipo ou individuação mal resolvida.

Isaías não sabia o que isso significava.

Mas desconfiava que era uma forma elegante de dizer a mesma coisa.

Depois do café, entrou no quarto. Na parede havia apenas três coisas: uma rede enrolada, uma fotografia da família e um mapa.

O mapa não era do Brasil.

Nem do Amazonas inteiro.

Era menor.

Iranduba. Rio Preto da Eva. Manacapuru. Novo Airão.

Pequenos círculos feitos à caneta marcavam ramais, estradas, comunidades e localidades com nomes que para ele tinham gosto de possibilidade.

Ali estava seu segredo.

Às vezes passava horas olhando aquele mapa.

Imaginando.

Calculando.

Sonhando.

Não queria ficar rico. Não queria aparecer na televisão. Não queria milhões de seguidores. Não queria apartamento, relógio caro, carro importado.

Queria terra.

Um pedaço pequeno bastava.

Bananeiras.

Macaxeira.

Cupuaçu.

Uma casa de madeira.

Algumas galinhas.

Talvez um açude.

Nada grandioso.

Mas toda vez que começava a juntar dinheiro acontecia alguma coisa.

A doença da mãe.

A dívida do irmão.

A escola da sobrinha.

O telhado.

A moto.

A geladeira.

A vida parecia possuir uma habilidade sobrenatural para consumir sonhos.

Ainda assim ele guardava anúncios. Anotava preços. Perguntava sobre terrenos. Conversava com agricultores. Fingia desinteresse.

Não enganava ninguém.

Muito menos a si mesmo.

Antes de sair, abriu a gaveta. Lá dentro havia um envelope velho, amarelado. Economias. Pouco mais de oito mil reais juntados em anos.

Passou os dedos sobre o envelope como quem acaricia uma fotografia.

Depois guardou novamente.

Sonhar era gratuito.

Comprar terra ainda não.

Ao sair de casa, encontrou Raimundinho sentado na calçada.

— E aí, Isaías.

— Bom dia.

— Fiquei sabendo de um terreno.

Isaías parou.

— Onde?

— Depois do Iranduba.

O coração acelerou.

— Quanto?

— Não sei. Mas parece barato.

Isaías tentou parecer indiferente.

Não conseguiu.

— Tu tem o contato?

— Tenho.

Raimundinho sorriu.

Todo mundo conhecia aquele brilho.

Era o brilho que aparecia quando alguém falava de terra. O mesmo brilho que alguns homens tinham quando falavam de ouro. O mesmo brilho que outros tinham quando falavam de amor.

Isaías agradeceu, guardou o número e subiu na moto.

Enquanto atravessava a cidade rumo a Adrianópolis, a ideia voltou a ocupar seus pensamentos.

Talvez.

Só talvez.

Desta vez o sonho estivesse um pouco mais perto.

E pela primeira vez em muitos anos, isso o assustou mais do que a possibilidade de fracassar.


Capítulo 3 — A menina da tela

Quando Fabíola acordou, já havia quarenta e três notificações esperando por ela.

Não eram mensagens.

Eram cobranças.

Ainda que ninguém chamasse assim.

Uma marca queria aprovação de roteiro. Outra queria alteração no vídeo. A agência perguntava sobre métricas. Um fotógrafo cobrava resposta. A assessora lembrava compromissos. Um aplicativo exibia gráficos. Outro exibia números. Outro exibia crescimento. Outro exibia queda.

Todos queriam alguma coisa.

Ninguém perguntou se ela dormira bem.

Fabíola largou o celular sobre a cama e ficou olhando para o teto. O ar-condicionado fazia um ruído constante, tão familiar que ela já não o ouvia.

Houve um tempo em que gostava daquilo.

Das fotos.

Das campanhas.

Dos seguidores.

Agora era diferente.

Sentia-se gerente de uma empresa que funcionava vinte e quatro horas por dia e cuja principal matéria-prima era ela mesma.

Levantou, foi até o espelho e observou o próprio rosto.

Vinte e quatro anos.

Milhões de seguidores.

Contratos.

Dinheiro.

Reconhecimento.

E uma pergunta que surgia todas as manhãs.

Até quando?

Até quando continuariam olhando?

Até quando continuariam gostando?

Até quando ela continuaria sendo novidade?

A pergunta nunca encontrava resposta.

Por isso ela pegava o celular novamente.

O aparelho era remédio e doença.

Ao descer para o café encontrou Juracy à mesa. A velha lia um livro. Fabíola tinha a impressão de que a avó passara os últimos setenta anos lendo exatamente o mesmo livro.

— Bom dia.

— Está atrasada.

— Para quê?

— Para a vida.

— Lá vem.

Juracy abaixou os óculos.

— Você dormiu?

— Dormi.

— Quantas horas?

— Não sei.

— Então não dormiu.

Fabíola pegou uma fatia de mamão.

— A senhora acha que todo mundo tem problema.

— Não.

— Não?

— Só os vivos.

Fabíola revirou os olhos. Havia dias em que Dona Juracy parecia fabricar frases de efeito durante a madrugada.

— Sabe qual é seu problema? — perguntou a idosa.

— Qual deles?

— Você está sempre sendo observada.

— Faz parte do meu trabalho.

— Não. Estou falando de outra coisa.

Silêncio.

— Você desaprendeu a ficar sozinha.

Fabíola levantou imediatamente.

— Tenho reunião.

E saiu.

Porque aquela conversa era perigosa.

Perigosa porque talvez estivesse certa.

Mais tarde, já dentro do carro, abriu um aplicativo. Depois outro. Depois outro. Depois outro.

Tudo normal.

Os números continuavam crescendo.

Mesmo assim a ansiedade não diminuía.

Porque crescimento nunca era suficiente. O crescimento de hoje se transformava na obrigação de amanhã.

Ela conhecia influenciadores maiores, mais ricos, mais famosos, mais bonitos.

Conhecia também influenciadores esquecidos.

Pessoas que haviam desaparecido em poucos meses.

O algoritmo amava.

Depois abandonava.

Como um deus instável.

Ao chegar ao estúdio encontrou Camila, sua empresária.

— Precisamos conversar.

Fabíola odiava quando alguém começava uma frase assim.

— O que foi?

— Sua taxa de engajamento caiu.

Fabíola fechou os olhos.

Claro.

Sempre um número.

Sempre uma porcentagem.

Sempre um gráfico.

— Quanto?

— Pouco. Mas caiu.

— E daí?

Camila a encarou.

— Daí que as marcas observam isso.

Fabíola sentiu o estômago apertar. Não porque a queda fosse grave, mas porque sabia que aquela conversa nunca terminava.

Quando os números subiam, queriam mais.

Quando os números caíam, queriam explicações.

Em nenhum cenário havia paz.

Horas depois, durante uma gravação, precisou repetir a mesma cena dezesseis vezes.

Sorrir.

Apenas sorrir.

Na décima sexta tentativa, percebeu algo estranho.

O rosto obedecia.

Mas o sorriso já não parecia seu.

Parecia pertencer a outra pessoa.

Uma pessoa criada para vender.

Uma pessoa que morava dentro da tela.

Uma pessoa que começava a ocupar espaço demais.

Na volta para casa, presa no trânsito da Avenida Constantino Nery, observou a cidade pela janela. Viu vendedores ambulantes, mototaxistas, pedreiros, gente entrando e saindo dos ônibus.

Por um instante pensou em Isaías.

Nunca o via com celular na mão.

Nunca o via preocupado com curtidas.

Nunca o via correndo.

Era estranho.

Parecia viver em outro tempo.

Depois balançou a cabeça.

Era uma ideia boba.

Ninguém tinha a vida simples assim.

Nem mesmo Isaías.

Principalmente Isaías.

Sem perceber, olhou para o reflexo da própria imagem na janela escura do carro.

E teve a sensação desconfortável de que passava cada vez mais tempo observando aquela mulher refletida do que observando qualquer pessoa real.

Inclusive a si mesma.


Capítulo 4 — As velhas fotografias

A chuva caiu às quatro da tarde.

Em Manaus, a chuva não pede licença. Chega como visita íntima, abre todas as portas do céu, derruba folhas, lava calçadas, assusta cachorro e depois vai embora fingindo que nada aconteceu.

Fabíola estava no escritório de Juracy procurando um carregador quando encontrou a caixa.

Era de madeira escura, com fecho de metal enferrujado e cheiro de coisa guardada por tempo demais. Dentro havia fotografias antigas, cartas amareladas, recortes de jornal e uma medalha oxidada.

Pegou uma foto.

Um homem branco de bigode fino posava diante de um casarão às margens de um rio. Atrás dele, homens negros, indígenas e caboclos carregavam fardos. O homem da frente sorria. Os de trás, não.

— Bisavô Willem — disse Juracy da porta.

Fabíola se assustou.

— A senhora anda sem fazer barulho.

— Aprendi com a velhice. Ela também chega assim.

Juracy entrou devagar.

— Ele era holandês?

— Filho de holandês. Ou neto. Essas famílias antigas sempre aumentam a Europa conforme a conveniência.

Fabíola sentou no chão.

— Ele era rico?

— Muito.

— Borracha?

— Borracha.

A palavra ficou no ar.

A borracha, naquela casa, nunca era apenas borracha. Era origem, fortuna, culpa, orgulho e silêncio.

Fabíola pegou outra imagem.

— E essas pessoas atrás dele?

Juracy demorou para responder.

— Trabalhavam para a família.

— Trabalhavam?

— Era como se dizia.

Fabíola olhou para a avó.

— E como deveria ser dito?

Juracy tirou os óculos, limpou as lentes sem necessidade e tornou a colocá-los.

— Talvez exploradas.

A palavra saiu baixa.

Quase sem querer.

Fabíola voltou às fotografias. Em outra imagem, uma mulher elegante segurava uma criança no colo. Ao lado, uma menina indígena descalça olhava para fora do quadro como se quisesse sair dali.

— Quem é essa menina?

— Não sei.

— Ninguém sabe?

— Na época, nem todo mundo ganhava nome nos álbuns.

Fabíola sentiu um desconforto. Não era indignação pura. Era algo mais íntimo. A percepção de que parte de sua vida confortável repousava sobre pessoas que tinham sido deixadas sem legenda.

— E a senhora nunca pensou nisso?

Juracy sentou na poltrona.

— Pensei. Mas pensar tarde não muda o passado.

— Muda a pessoa.

A velha olhou para ela.

— Às vezes.

Fabíola ergueu uma sobrancelha.

— A senhora sabe que trata Isaías desse mesmo jeito?

— Que jeito?

— Como alguém que precisa ser explicado pela origem.

Juracy endureceu.

— Eu trato Isaías muito bem.

— Eu sei.

— Gosto dele.

— Eu sei também.

— Então?

— Esse é o problema. A senhora acha que gostar de alguém impede preconceito.

Juracy abriu a boca, mas não falou.

Na varanda, Isaías recolhia ferramentas antes da chuva engrossar. De onde estavam, podiam vê-lo atravessar o jardim com a calma de quem não briga com o tempo.

— Ele é um rapaz extraordinário — disse Juracy.

— Para alguém do Jorge Texas?

A frase acertou.

Juracy desviou o olhar.

— Você está sendo injusta.

— Talvez.

Fabíola guardou a fotografia na caixa.

— Mas a senhora também é.

Juracy ficou quieta.

A chuva aumentou.

Por alguns minutos, ouviram apenas a água batendo nos telhados e nas folhas das mangueiras.

Fabíola levantou e foi até a janela.

— Eu também tenho meus defeitos, vó.

— Muitos.

— Obrigada.

— Não há de quê.

As duas sorriram sem olhar uma para a outra.

Depois Fabíola disse:

— Mas esse não é um dos meus.

Juracy não respondeu.

Lá fora, Isaías passou pela janela carregando um vaso pesado. Juracy quase chamou para pedir cuidado. Depois se calou.

Pela primeira vez, percebeu que às vezes sua preocupação vinha vestida de carinho, mas calçada com superioridade.

E aquilo a incomodou.

Porque aos noventa anos é humilhante descobrir um defeito antigo.

Mais humilhante ainda é perceber que ele sempre esteve à vista.


Capítulo 5 — A falta de luz

O apagão veio junto com um trovão.

Não foi queda de energia comum, dessas que fazem a casa suspirar e voltar em seguida. Foi escuridão inteira. A sala, a varanda, os postes da rua, as casas vizinhas, tudo mergulhou num breu quente e repentino.

O ar-condicionado morreu.

O roteador apagou.

O silêncio entrou na casa como um invasor.

Fabíola desceu as escadas segurando o celular acima da cabeça, como se pudesse arrancar sinal do teto.

— Caiu tudo?

Isaías apareceu na porta da varanda, encharcado.

— Adrianópolis inteira está no escuro.

— Mas o 4G também?

— Chuva derrubou alguma coisa.

Fabíola apertou a tela.

Nada.

Sem sinal.

Sem internet.

Sem resposta.

Sua respiração encurtou.

— Não, não, não.

Juracy acendeu um castiçal de prata, desses herdados de gente que acreditava em apagões elegantes.

— Sente-se.

— Eu preciso postar.

— O mundo sobreviverá.

— A senhora não entende.

— Entendo mais do que você gostaria.

Fabíola andava em círculos pela sala.

— Tem campanha hoje. Tem contrato. Tem gente esperando.

Isaías tirou a camisa molhada e ficou com uma camiseta fina por baixo.

— Quer que eu veja o gerador?

— Não temos gerador — respondeu Juracy.

— Uma casa desse tamanho sem gerador? — ele perguntou.

— Durante noventa anos sobrevivi sem um.

— Também sobreviveu sem internet.

— Com mais facilidade.

Fabíola levou as mãos ao rosto.

— Parece que se eu não postar, eu não existo.

A frase saiu pequena.

Ninguém riu.

Nem Juracy.

Nem Isaías.

A velha colocou um prato sobre a mesa.

— Bolo de macaxeira.

— Vó, eu estou em crise.

— Por isso mesmo. Gente em crise precisa mastigar alguma coisa.

Fabíola sentou. Suava. Sem filtro, sem luz calculada, sem controle do ambiente, parecia mais jovem. Não mais bonita. Mais jovem.

Isaías sentou do outro lado, mantendo distância.

A vela iluminava os três por baixo. Fazia sombras grandes nas paredes. As fotografias antigas pareciam observar a cena com uma severidade inútil.

— Quando eu era menina — começou Juracy — minha mãe dizia que o escuro revelava o caráter da casa.

Fabíola bufou.

— A senhora sempre tem uma história.

— Tenho noventa anos. O que você queria que eu tivesse? Planilha?

Isaías riu.

Fabíola também, contra a vontade.

O riso quebrou alguma coisa.

A chuva continuava martelando o telhado.

— Lá no Jorge Teixeira — disse Isaías — quando falta luz, o povo bota cadeira na calçada.

— E não tem medo? — perguntou Juracy.

Fabíola olhou imediatamente para ela.

Isaías percebeu.

— Medo de quê?

— De... da rua.

— A rua é onde a gente conhece as pessoas, Dona Juracy.

Juracy se incomodou com a resposta. Não porque fosse agressiva. Porque não era.

— Aqui a gente se tranca dentro de casa — disse Fabíola.

— Eu notei — respondeu Isaías.

Silêncio.

Fabíola mexeu no pedaço de bolo.

— Você gosta de morar lá?

Isaías pensou.

— Gosto de algumas pessoas. Não gosto da falta de escolha.

— Como assim?

Ele olhou para a vela.

— Quando a pessoa nasce em certos lugares, todo mundo acha que ela é forte. Mas às vezes ela só não teve opção de ser fraca.

Fabíola o encarou.

Pela primeira vez sem câmera.

— Você queria morar onde?

Isaías demorou.

— No interior.

— Onde?

— Perto do Iranduba. Ou Rio Preto. Algum lugar com terra.

— Para quê?

— Plantar.

Juracy sorriu.

— Você já planta.

— Eu cuido do jardim dos outros.

A frase ficou na mesa.

Fabíola entendeu alguma coisa, mas ainda não sabia dar nome.

O celular dela vibrou. Um risco mínimo de sinal apareceu e desapareceu.

Ela pegou o aparelho como quem agarra um copo d'água.

Depois parou.

Olhou para Juracy.

Olhou para Isaías.

Deixou o celular virado para baixo.

— O bolo está bom — disse.

Juracy não comentou.

Às vezes o silêncio é o único elogio que não humilha.


Capítulo 6 — Jorge Teixeira

Fabíola foi ao Jorge Teixeira numa quinta-feira.

Não anunciou.

Não gravou.

Não fez story.

Foi porque Isaías esquecera uma ferramenta no casarão e ela inventou que precisava devolver pessoalmente. Juracy ofereceu o motorista. Fabíola recusou.

— Vou de aplicativo.

— Sozinha?

— Não estou indo para outro planeta.

— Dependendo do horário...

— Vó.

Juracy ajeitou os óculos.

— Eu só disse dependendo do horário.

— A senhora não precisa terminar as frases para elas serem feias.

A velha fingiu não ouvir.

O carro atravessou a cidade e Fabíola viu Manaus mudar pela janela. Os prédios deram lugar a comércios espremidos, oficinas, igrejas, mercadinhos, placas pintadas à mão, crianças de bicicleta, homens sentados em frente a bares, mulheres carregando sacolas, motos desviando de buracos com uma intimidade quase coreográfica.

Não era o inferno que Juracy insinuava.

Também não era poesia.

Era vida.

Vida apertada.

Vida fazendo conta.

Vida improvisando.

Quando chegou, Isaías estava na calçada consertando uma mangueira.

— Tu veio aqui?

— Vim devolver isso.

Ela ergueu a ferramenta.

— Dava para mandar.

— Eu sei.

Ele desconfiou.

— Está gravando?

Fabíola se ofendeu.

— Não.

Ele olhou para as mãos dela.

Sem celular.

— Então entra.

Dona Maria apareceu na porta, enxugando as mãos no pano de prato.

— Essa é a menina da televisão?

— Sou eu — disse Fabíola, sem saber se sorria muito ou pouco.

— Tu é mais magra pessoalmente.

Isaías fechou os olhos.

— Mãe.

— Ué, é verdade.

Fabíola riu.

Era raro alguém comentar seu corpo sem maldade profissional.

A casa era simples, mas limpa. Na sala havia uma estante com santos, fotografias e um ventilador que fazia mais barulho do que vento. Dona Maria serviu café e bolo de milho.

— Eu não quero incomodar.

— Então come logo para não incomodar por muito tempo.

Fabíola comeu.

Isaías observava a cena com uma tensão estranha. Ali era seu território, mas não estava confortável. Talvez porque Fabíola o visse agora fora do jardim de Adrianópolis. Talvez porque a pobreza, quando recebe visita, parece ficar de pé no meio da sala.

Dona Maria falava com naturalidade.

— Isaías era danado quando pequeno.

— Ainda é — disse Fabíola.

Ele olhou para ela.

— Não sou danado.

— É teimoso.

— Isso é diferente.

— É o nome adulto.

Dona Maria bateu palmas.

— Gostei dela.

Isaías não respondeu.

Na parede do quarto, Fabíola viu o mapa.

— Você marcou lugares?

— Alguns.

— Tudo terreno?

Ele guardou a ferramenta com pressa.

— Mais ou menos.

— Você pesquisa mesmo.

— Às vezes.

Dona Maria gritou da cozinha:

— Todo dia!

Isaías passou a mão no rosto.

Fabíola se aproximou do mapa.

Iranduba.

Rio Preto.

Manacapuru.

— Por que Iranduba?

— Perto o bastante para não abandonar minha mãe. Longe o bastante para respirar.

A resposta a surpreendeu.

Ela pensou em sua própria vida. Perto demais de todos. Longe demais de si.

Quando voltou para Adrianópolis, Juracy estava na varanda.

— E então?

— Então o quê?

— Como foi?

Fabíola largou a bolsa na cadeira.

— Normal.

— Normal?

— Gente mora lá, vó. A senhora sabia?

Juracy fechou o livro.

— Não seja grosseira.

— A senhora foi primeiro.

— Eu só me preocupo.

— Não. A senhora imagina.

A frase acertou.

Fabíola subiu sem esperar resposta.

Juracy ficou sozinha na varanda.

Ao longe, um trovão pequeno rolou sobre a cidade.

A velha olhou para o jardim e, pela primeira vez em muitos anos, sentiu vergonha de uma preocupação.


Capítulo 7 — O manifesto

A ideia daquele texto nasceu numa manhã abafada.

Juracy acordara irritada com uma reportagem sobre adolescentes que pagavam desconhecidos para conversar com eles por chamada de vídeo. Leu a notícia inteira, fechou o tablet com força e declarou:

— A humanidade terceirizou o afeto.

Fabíola, ainda de pijama, respondeu:

— Bom dia para a senhora também.

Mas a frase ficou.

Durante dias, Juracy andou pela casa ditando pensamentos soltos para um gravador. Chamava aquilo de ensaio. Depois de uma semana, admitiu que precisava de ajuda para organizar o texto.

Chamou Isaías.

— Preciso de um copista.

— Copista?

— Alguém que digite enquanto eu penso.

— Isso não se chama secretário?

— Secretário parece caro.

— Copista parece escravidão.

Juracy travou.

Isaías continuou olhando para ela.

Fabíola, sentada no sofá, ergueu os olhos.

— Ele tem razão.

A velha respirou fundo.

— Está bem. Preciso de ajuda com o texto. Posso pagar por hora.

— Assim melhora — disse Isaías.

Começaram naquela tarde.

O escritório de Juracy tinha livros demais e ar demais. Isaías sentou diante do computador como quem entra numa igreja desconhecida.

— Título — ditou Juracy. — Manifesto das Redes Antissociais.

Ele digitou.

— Muito bravo.

— É um manifesto.

— Manifesto também pode conversar.

Juracy olhou para ele.

— Você quer escrever comigo?

— A senhora me chamou para digitar ou para concordar?

Fabíola sorriu sem levantar a cabeça.

Juracy demorou.

— Continue.

Ela ditou:

— O algoritmo opera mapeando as fomes arquetípicas da humanidade e as devolve em forma de dopamina sintética.

Isaías parou.

— Ninguém vai ler isso.

— Como é?

— Eu digitei. Mas ninguém vai ler.

— É uma frase precisa.

— Precisa para quem?

Juracy ficou ofendida.

Fabíola fechou o notebook.

— Eu concordo com ele.

— Claro que concorda. Você é o objeto de estudo.

— Obrigada por me transformar em inseto.

Isaías apagou a frase.

— Não apague.

— Vou reescrever.

— Quem autorizou?

— A senhora pediu ajuda.

Ele digitou:

— As telas descobriram aquilo de que a gente tem fome. Depois começaram a vender migalha com gosto de banquete.

Juracy leu.

Não disse nada.

Leu de novo.

— É bom.

— É simples.

— Simplicidade não é ausência de pensamento.

Isaías sorriu.

— Então estamos avançando.

Na prateleira atrás dela havia um exemplar velho de Nietzsche, com a lombada quase desfeita. Juracy o pegou como quem tira uma faca de dentro de uma gaveta antiga.

— Nietzsche dizia que há uma diferença brutal entre quem cria valores e quem apenas julga os valores criados pelos outros.

Isaías olhou para o livro.

— Isso quer dizer o quê em português?

Fabíola riu.

Juracy não se ofendeu.

— Quer dizer que muita gente não tem coragem de construir nada, mas se sente no direito de vigiar, condenar e criar regras para quem constrói.

Isaías ficou sério.

— Isso eu conheço.

— Conhece?

— Conheço patrão que nunca carregou saco querendo ensinar coluna de carregador. Conheço gente que nunca plantou uma muda dizendo que a terra está errada. Conheço quem não faz, mas quer mandar no jeito de fazer.

Fabíola baixou os olhos.

Conhecia também.

Nas redes, todos pareciam mestres da vida alheia. Gente que nunca arriscara um gesto cobrava perfeição de quem aparecia. Gente que não criava nada exigia pureza de quem tentava. E ela mesma, tantas vezes, fizera o contrário: posara de quem fazia, quando só obedecia ao que esperavam dela.

Juracy passou os dedos pela capa do livro.

— Então escreva isso.

Isaías digitou:

— O mundo está cheio de fiscais da coragem alheia. Pessoas sentadas na sombra, criando regras para quem está no sol. Mas a vida não pertence a quem apenas aponta. Pertence a quem planta, erra, refaz e continua.

Fabíola leu a frase.

Desta vez, foi ela quem disse:

— Essa fica.

Durante semanas, trabalharam assim. Juracy trazia teoria. Isaías trazia chão. Fabíola aparecia às vezes, fingindo desinteresse, mas ouvia mais do que admitia.

Aquele texto deixava de ser um sermão e virava conversa. Falava de gente que sorria sozinha para telas. De famílias sentadas à mesa em silêncio, cada uma com o rosto iluminado por um aparelho. De mães que filmavam o choro dos filhos antes de consolá-los. De homens que confundiam desejo com catálogo. De jovens que não sabiam mais se sofriam ou se apenas produziam sofrimento para alguém ver.

Juracy queria salvar a alma do mundo.

Isaías queria que o texto coubesse na boca de sua mãe.

Fabíola queria que ninguém percebesse que cada linha lhe raspava por dentro.

Numa tarde, Juracy ditou:

— A conexão que salva não tem wi-fi.

Isaías parou.

— Essa fica.

— Eu também achei.

— Mas precisa de uma coisa antes.

— O quê?

Ele pensou.

— Tem raiz.

Juracy sorriu.

— A conexão que salva não tem wi-fi. Tem raiz.

Fabíola repetiu em voz baixa.

Não por achar bonito.

Por sentir medo de ser verdade.


Capítulo 8 — A festa da Ponta Negra

A festa na Ponta Negra foi planejada para parecer espontânea.

Nada ali era.

As luzes, os drinks, as plantas decorativas, os convidados, os abraços, as risadas e até os silêncios pareciam obedecer a uma equipe invisível. Fabíola chegara a quatro milhões de seguidores, e a agência decidiu comemorar como se aquilo fosse uma coroação.

Ela convidou Isaías no dia anterior.

Não soube exatamente por quê.

Talvez gratidão.

Talvez culpa.

Talvez vontade de mostrar que era melhor do que ele pensava.

Ele foi.

Vestiu sua melhor camisa social, uma calça escura e sapatos que usava apenas em casamento, velório e ocasião em que pobre se sente observado.

Na entrada, o segurança olhou seu nome na lista três vezes.

— Isaías Pereira.

— Documento.

Isaías entregou.

— Você é da equipe?

— Sou convidado.

O segurança olhou de novo.

— Pode entrar.

Lá dentro, Fabíola brilhava. Ou parecia brilhar. Vestido prateado, maquiagem perfeita, sorriso ensaiado, pessoas importantes ao redor. Ela viu Isaías e acenou.

— Isaías! Vem cá!

Ele atravessou o salão sentindo o chão diferente sob os pés.

— Você veio.

— Você chamou.

— Que bom.

Ela segurou seu braço e puxou o celular.

— Gente, olha quem veio! O Isaías, que cuida do jardim lá de casa. Uma das pessoas mais puras que eu conheço. Humildade sempre!

A palavra pureza bateu nele de um jeito ruim.

Pior ainda foi perceber que ela o posicionara ao lado de uma planta decorativa.

De plástico.

Isaías olhou para o vaso.

Depois para ela.

Fabíola continuava falando.

— Ele entende tudo de planta, gente. Tudo mesmo.

Alguém riu.

Não uma gargalhada.

Uma risada pequena.

Suficiente.

Isaías se soltou com gentileza.

— Vou pegar uma água.

— Espera, só mais um story.

— Não.

Ela abaixou o celular.

— O quê?

— Não.

Ele saiu.

Fabíola ficou parada, sem entender.

Mais tarde, tentou procurá-lo. Não encontrou.

No sábado, no casarão, ele apareceu para trabalhar como se nada tivesse acontecido.

Fabíola foi até o jardim.

— Você foi embora sem falar comigo.

— Falei.

— Não falou.

— Falei não.

— Isso não conta.

Isaías podava uma roseira.

— Conta para mim.

— Você ficou bravo.

— Fiquei.

— Por causa de um story?

Ele parou.

— Por causa do lugar onde você me colocou dentro dele.

Fabíola cruzou os braços.

— Eu estava te homenageando.

— Do lado de uma planta de plástico.

Ela ficou vermelha.

— Eu não percebi.

— Esse é o problema.

O vento trouxe cheiro de chuva.

Isaías guardou a tesoura.

— Você me usou para parecer simples.

— Não foi isso.

— Foi.

— Você está exagerando.

— Talvez.

Ele olhou para ela.

— Mas eu sei reconhecer quando virei enfeite.

A frase doeu mais por ser calma.

Fabíola tentou responder, mas não encontrou palavra que não fosse desculpa.

Isaías continuou:

— A menina que comeu bolo no escuro eu respeito. Aquela mulher prateada da festa eu não conheço.

Fabíola sentiu raiva.

Porque a verdade, quando chega sem grito, encontra mais fácil o caminho da vergonha.


Capítulo 9 — A discussão

O vídeo com o texto de Juracy e Isaías ficou pronto numa manhã de sexta-feira.

Juracy gravou na varanda, sem maquiagem, sem filtro, com a luz natural atravessando as folhas das mangueiras. Isaías posicionou o tablet num tripé velho. Fabíola não estava em casa.

A gravação não ficou perfeita.

Um caminhão passou na rua.

Um cachorro latiu.

Juracy errou uma palavra e não quis repetir.

— A vida não repete — disse.

O vídeo ficou cru.

E por isso mesmo tinha força.

Juracy falava de solidão sem parecer que vendia cura. Falava de telas como quem fala de espelhos. Dizia que o problema não era a tecnologia, mas a fome antiga de ser visto sem ser tocado. Isaías acrescentara algumas frases. Juracy aceitara outras. O texto já não pertencia a um só.

Nos créditos, ele escreveu:

Texto: Juracy Van der Meer e Isaías Pereira.

Quando Fabíola voltou de São Paulo, encontrou o tablet sobre a mesa e deu play.

Assistiu em silêncio.

No início, ficou emocionada.

Depois, desconfortável.

Depois, ferida.

Quando viu o nome de Isaías ao lado do de Juracy, algo dentro dela se armou.

— Isso é uma humilhação — disse.

Juracy estava no sofá.

— É um manifesto.

— Contra mim.

— Não é contra você.

— Todo mundo vai saber.

— Saber o quê?

— Que eu sou a doente da história.

Isaías apareceu na porta.

— Ninguém falou teu nome.

— Não precisou.

Ele não respondeu.

Fabíola apontou para o tablet.

— E você? Agora é escritor?

— Não.

— Então por que teu nome está aí?

— Porque escrevi também.

— Você digitou.

— Também pensei.

A frase atravessou a sala.

Juracy levantou a mão.

— Fabíola, cuidado.

— Cuidado digo eu. A senhora pega um jardineiro, coloca no escritório, dá livro, dá frase, dá importância, e agora ele acha que pode me explicar.

Isaías empalideceu.

Juracy fechou os olhos.

Fabíola percebeu tarde demais o que dissera.

Mas orgulho é um animal que prefere sangrar a recuar.

— É isso que você acha? — perguntou Isaías.

— Eu acho que vocês fizeram isso pelas minhas costas.

— A gente fez porque você não escuta pela frente.

Fabíola riu, nervosa.

— E você escuta muito, né? O homem que nunca parou em emprego porque não aceita chefe.

Isaías apertou a mandíbula.

Juracy tentou intervir.

— Chega.

Mas já era tarde.

Isaías pegou a mochila.

— Vou embora.

Fabíola falou antes de pensar:

— Ótimo.

Ele parou na porta.

— O castigo não sou eu ir embora.

Ela sustentou o olhar.

— Não?

— Não. O castigo é você ficar sozinha com a pessoa que você inventou.

Saiu.

A casa ficou imensa.

Juracy encarou Fabíola com uma tristeza que não precisava de teoria.

— Você foi cruel.

Fabíola tremia.

— Ele também foi.

— Foi honesto.

— A senhora sempre fica do lado dele.

— Não. Hoje eu fiquei do lado da verdade.

Fabíola subiu as escadas sem responder.

No quarto, trancou a porta e abriu o celular.

Pela primeira vez, os milhões de seguidores pareceram inúteis.

Nenhum deles podia desfazer uma frase.


Capítulo 10 — O vazamento

O áudio vazou três dias depois.

Fabíola estava no banho quando ouviu o primeiro grito de Camila pelo telefone. Atendeu enrolada na toalha, ainda pingando água no piso.

— Você precisa sentar.

— O que aconteceu?

— Vazou um áudio da festa.

Fabíola soube antes de ouvir.

Há culpas que reconhecem o próprio cheiro.

O áudio era curto. Barulho de música, risadas, vozes misturadas. Depois a voz dela, levemente bêbada, dizendo:

— Eu trouxe o roceiro do quintal para fingir humildade.

Alguém ria ao fundo.

A internet não precisou de contexto.

Contexto é coisa lenta.

O ódio tem pressa.

Em uma hora, perfis de fofoca publicaram. Em duas, marcas pediram explicações. Em três, ex-amigas escreveram textos indignados, todas muito surpresas com uma Fabíola que conheciam há anos. Em quatro, vídeos antigos foram reeditados para provar que ela sempre fora aquilo. Em cinco, o nome dela estava entre os assuntos mais comentados do país.

Juracy viu tudo da varanda.

Não precisou perguntar.

Fabíola desceu com o rosto pálido.

— Vó...

A velha permaneceu sentada.

— É verdade?

Fabíola chorou antes de responder.

— Eu estava bêbada.

— Isso não responde.

— Eu não queria...

— Isso também não responde.

Fabíola sentou no chão.

— Eu falei.

Juracy fechou os olhos.

A confirmação doía não porque surpreendia, mas porque organizava coisas que ela já vira.

— Preciso falar com Isaías.

— Precisa.

— Ele não vai atender.

— Talvez não.

— A senhora pode falar?

— Não.

Fabíola levantou a cabeça.

— Por quê?

— Porque a frase foi sua.

Lá fora, começou um movimento estranho. Carros paravam devagar. Pessoas fotografavam a fachada. Um homem com câmera atravessou a rua. Depois outro. Depois uma mulher falando ao vivo para o celular.

A fumaça virtual tinha encontrado o endereço da casa.

Fabíola recuou.

— Eles estão aqui?

Juracy olhou pela janela.

— Estão.

— O que eu faço?

Pela primeira vez, Juracy não tinha uma frase.

A multidão cresceu ao longo da tarde. Repórteres, curiosos, influenciadores menores, vizinhos fingindo que passavam por acaso. Gente que nunca amara Fabíola agora se sentia autorizada a odiá-la com intimidade.

O portão balançou quando alguém tentou empurrar.

Fabíola entrou em pânico.

Subiu para o quarto, trancou-se e sentou no chão. O ar-condicionado gelava demais, mas ela suava. O celular vibrava sem parar. Mensagens de marcas, assessores, jornalistas, desconhecidos, ameaças, insultos, conselhos, memes.

Todos queriam alguma coisa.

Mesmo sua ruína.

Principalmente sua ruína.

Então o barulho da rua mudou.

Não diminuiu.

Mudou.

Isaías apareceu no portão.

Não falou com ninguém. Abriu caminho no corpo da multidão como quem abre mato fechado. Empurrou microfones. Ignorou perguntas. Entrou, passou uma corrente grossa no portão e ficou ali, de braços cruzados.

Silêncio não dá corte bom.

Aos poucos, os curiosos recuaram.

Ele subiu até o quarto de Fabíola. Bateu uma vez.

— Sou eu.

Ela não respondeu.

— Vou entrar.

A porta estava destrancada.

Fabíola estava encolhida no chão, tremendo. Quando viu Isaías, tentou falar. Não conseguiu.

Ele não disse eu avisei.

Não disse bem feito.

Não disse nada.

Tirou a camisa de botão, colocou sobre os ombros dela e sentou no chão ao lado.

Fabíola chorou.

Chorou feio.

Sem ângulo.

Sem legenda.

Sem utilidade.

Chorou como gente.

Isaías ficou.

Não para salvá-la.

Mas para que ela não se destruísse sozinha.


Capítulo 11 — A tentativa de salvar a imagem

No dia seguinte, Fabíola tentou pedir desculpas.

Foi uma tragédia.

Camila preparou um roteiro. A agência sugeriu roupas claras, maquiagem leve, cabelo preso, iluminação natural. A frase principal era:

“Peço perdão a todos que se sentiram ofendidos.”

Juracy leu e devolveu a folha.

— Isso não é pedido de perdão. É comunicado de empresa.

— É gerenciamento de crise — disse Camila.

— Exatamente.

Fabíola estava sentada no sofá, olhos inchados, rosto lavado.

— Eu preciso fazer alguma coisa.

— Precisa — disse Juracy. — Mas não isso.

Camila respirou fundo.

— Dona Juracy, com todo respeito, a senhora não entende de internet.

— E vocês entendem de alma?

Ninguém respondeu.

A primeira gravação saiu fria.

A segunda, falsa.

A terceira, pior.

Na quarta, Fabíola parou no meio.

— Eu não consigo.

Camila se aproximou.

— Consegue. É só seguir o texto.

— Mas eu não sinto isso.

— Você sente culpa?

— Sinto.

— Então diga culpa com as palavras certas.

A frase deu nojo.

Fabíola levantou.

— Acabou.

— Fabíola, você tem contratos.

— Eu sei.

— Multas.

— Eu sei.

— Equipe.

— Eu sei!

Gritou.

A casa silenciou.

Camila recolheu os papéis.

— Então saiba também que o mercado não espera você se encontrar.

Foi embora.

Fabíola ficou em pé no meio da sala.

Juracy observava.

— Ela tem razão em uma coisa — disse a velha.

— Qual?

— O mercado não espera mesmo.

— Ótimo.

— Mas talvez seja bom descobrir quem fica quando ele vai embora.

Fabíola riu sem humor.

— Ninguém.

— Ainda não sabemos.

Nos dias seguintes, ela tentou salvar o que restava. Publicou uma nota. Apagou. Gravou vídeo. Não postou. Respondeu mensagens. Arrependeu-se. Bloqueou pessoas. Desbloqueou. Procurou Isaías. Não teve coragem de ligar.

O número de seguidores caía como água de torneira aberta.

A cada cem mil perdidos, ela sentia um pedaço de si indo junto.

Então percebeu o absurdo.

Aquelas pessoas nunca haviam sido suas.

Ela é que era deles.

Na sexta-feira, abriu o aplicativo e viu uma montagem sua ao lado de um trator, com legenda cruel. Riam de sua pele, de seu cabelo, de sua origem, de Isaías, de Dona Juracy, do casarão, de tudo.

O tribunal que a acusava de preconceito também sabia ser preconceituoso.

Aquilo não a inocentava.

Mas revelava a fome da multidão.

Fabíola desligou o celular.

Pela primeira vez em anos, o quarto ficou mudo.

E o silêncio pareceu maior do que a casa.


Capítulo 12 — O quarto sem plateia

A solidão não chegou como poesia.

Chegou como mau cheiro de comida esquecida, roupa jogada, banho adiado e cortinas fechadas.

Fabíola passou três dias quase sem sair do quarto. Não era uma cena bonita. Não era uma purificação. Era queda.

Juracy subia com bandejas.

Às vezes ela comia.

Às vezes não.

— Você precisa levantar.

— Para quê?

— Para não apodrecer.

— Dramática.

— Experiente.

No quarto dia, Dona Juracy sentou na beira da cama.

— Quando sua mãe morreu, você tinha doze anos.

Fabíola virou o rosto.

— Não começa.

— Eu nunca soube cuidar do seu luto.

— Vó.

— Eu tentei interpretar.

Fabíola fechou os olhos.

— Por favor.

— Eu deveria ter abraçado mais e explicado menos.

A frase desmontou algo.

Fabíola virou devagar.

Juracy olhava para as próprias mãos.

— Você era uma menina parda numa família que gostava de falar da Europa. Uma menina órfã numa casa cheia de retratos de mortos importantes. E eu achei que livros bastavam.

Fabíola chorou sem som.

— A senhora cuidou de mim.

— Cuidei.

Juracy respirou fundo.

— Mas às vezes cuidei como quem organiza uma biblioteca.

A velha tocou o lençol.

— Isaías me mostrou isso.

Fabíola se encolheu.

— Ele deve me odiar.

— Talvez um pouco.

— A senhora está péssima em consolar.

— Estou tentando ser honesta.

As duas ficaram em silêncio.

Depois Fabíola perguntou:

— Por que a senhora chama o bairro dele daquele jeito?

Juracy demorou.

— Porque sou uma velha preconceituosa.

Fabíola a encarou.

— A senhora admitiu?

— Não se acostume.

O riso veio pequeno, quebrado, molhado.

Juracy segurou a mão dela.

— A idade não melhora ninguém automaticamente. Só dá mais tempo para a pessoa repetir o próprio erro com elegância.

Fabíola apertou os dedos da avó.

— Eu queria consertar.

— Então pare de tentar parecer arrependida.

— E faço o quê?

— Fique arrependida.

Era simples.

E terrível.

Naquela noite, Fabíola abriu o celular. Não entrou nas redes. Foi às mensagens. Procurou Isaías.

Digitou:

“Me desculpa.”

Apagou.

Digitou:

“Eu fui horrível.”

Apagou.

Digitou:

“Você pode falar comigo?”

Apagou.

Por fim escreveu:

“Eu falei uma coisa imperdoável. Não vou pedir que você me perdoe agora. Só queria dizer que eu sei.”

Enviou.

A resposta não veio.

Mas pela primeira vez, ela não mandou outra mensagem para forçar retorno.

Deixou o silêncio dele existir.

Era pouco.

Mas era começo.


Capítulo 13 — O susto

Dona Juracy caiu numa terça-feira.

Não foi uma queda dramática. Não houve grito, sangue ou vidro quebrado. Apenas um barulho seco no corredor e o som de uma bengala rolando até bater na parede.

Fabíola chegou primeiro.

— Vó!

Juracy estava no chão, pálida, tentando preservar a dignidade até mesmo horizontal.

— Não faça esse escândalo.

— A senhora caiu!

— Notei.

— Está doendo?

— Meu orgulho.

Mas a mão tremia.

No hospital, disseram que não fora nada gravíssimo. Pressão, desidratação, idade, susto. Essas palavras que os médicos usam quando a vida avisa que continua mandando.

Isaías apareceu na recepção no fim da tarde.

Fabíola o viu de longe e levantou.

Ficaram um diante do outro sem saber onde colocar as mãos.

— Ela está bem? — perguntou ele.

— Vai ficar.

— Posso ver?

— Ela vai gostar.

— E você?

Fabíola engoliu.

— Eu também.

Ele assentiu.

No quarto, Juracy abriu os olhos ao vê-lo.

— Você demorou.

— Eu nem sabia que estava contratado para cair junto.

— Não seja insolente com uma idosa hospitalizada.

— A senhora é insolente até deitada.

Fabíola sorriu.

Juracy também.

Isaías aproximou-se da cama.

— Trouxe manga.

— De novo?

— Minha mãe mandou.

— Diga a ela que aceito por educação.

— Ela disse que a senhora diria isso.

A velha fechou os olhos, cansada, mas feliz.

Mais tarde, quando Isaías saiu para buscar água, Fabíola foi atrás.

— Eu recebi tua mensagem — disse ele.

Ela parou.

— Eu imaginei.

— Não respondi porque não sabia o que responder.

— Tudo bem.

— Não está tudo bem.

— Eu sei.

Ele olhou para o corredor branco.

— Eu passei a vida inteira sendo diminuído com delicadeza. Quando é grosseiro, é mais fácil. A gente reconhece. Mas quando vem com sorriso, elogio, convite, aí confunde.

Fabíola não tentou se defender.

— Eu fiz isso.

— Fez.

— Desculpa.

— Eu ainda estou com raiva.

— Tem direito.

Ele olhou para ela.

— Você falou isso sem tentar me convencer de nada.

— Estou aprendendo.

— Com quem?

— Com todo mundo que eu machuquei.

Isaías respirou fundo.

— Não sei se perdoo hoje.

— Não estou pedindo hoje.

Ele assentiu.

No quarto, Juracy fingia dormir.

Mas ouviu quase tudo.

A velhice não apaga a curiosidade.

Apenas a torna mais discreta.


Capítulo 14 — O bairro que ela nunca quis conhecer

Juracy foi ao Jorge Teixeira contra a própria vontade.

Disse que ia porque Dona Maria mandara mangas demais e seria falta de educação não agradecer pessoalmente. Fabíola não discutiu. Isaías também não.

Algumas mentiras pequenas merecem misericórdia.

O carro entrou no bairro devagar. Juracy observava pela janela com a postura de quem visita um país estrangeiro, embora estivesse apenas atravessando a própria cidade.

— É movimentado — disse.

— Bairro costuma ter gente — respondeu Fabíola.

— Não comece.

Isaías, no banco da frente, ficou quieto.

Na casa de Dona Maria, Juracy foi recebida com café, bolo e uma cadeira colocada de propósito no melhor lugar da sala. A velha agradeceu com formalidade. Dona Maria não se intimidou.

— A senhora é mais magra pessoalmente.

Fabíola quase engasgou.

Isaías olhou para o teto.

Juracy piscou.

Depois riu.

— Ouvi dizer que essa é sua especialidade.

— Aqui a gente fala logo para economizar tempo — disse Dona Maria.

As duas se olharam.

E, contra toda probabilidade, gostaram uma da outra.

Depois do café, crianças da rua chamaram Isaías. Havia uma mangueira entupida num terreno vizinho. Ele saiu. Fabíola foi junto. Juracy ficou com Dona Maria.

— Seu filho fala muito da senhora — disse Juracy.

— Reclama?

— Não.

— Então está escondendo coisa.

Juracy sorriu.

— Ele é um rapaz raro.

— É teimoso.

— Também.

— Não aceita desaforo. Isso atrapalha pobre.

Juracy ficou séria.

— Por quê?

— Porque rico quando não aceita desaforo vira personalidade forte. Pobre vira problema.

A frase entrou em Juracy sem pedir licença.

Do lado de fora, Isaías ajudava um vizinho. Crianças observavam. Mulheres conversavam nas portas. Um homem passou vendendo peixe. Um menino ofereceu dindin. A vida seguia cheia de falhas, barulho, cansaço e uma solidariedade prática que não cabia nos medos de Juracy.

Ela percebeu que durante anos imaginara aquele bairro através de notícias ruins e comentários de pessoas que nunca tinham posto os pés ali.

Chamava Jorge Teixeira de Jorge Texas como quem fazia piada.

Mas a piada tinha endereço.

E ninguém gosta de ser transformado em lugar perigoso.

Na volta, dentro do carro, Juracy demorou para falar.

— Isaías.

— Senhora?

— Eu peço desculpas.

Ele olhou pelo retrovisor.

— Pelo quê?

Ela poderia ter feito rodeio.

Não fez.

— Pelo Jorge Texas.

O carro ficou silencioso.

Fabíola olhou pela janela para esconder a emoção.

Isaías manteve os olhos na frente.

— Tudo bem.

— Não está tudo bem.

Ele não respondeu.

— Eu me acostumei a falar de gente simples como se simplicidade fosse destino. E não é.

Isaías apertou o volante.

— A senhora não é a pior pessoa que já fez isso.

— Isso não me absolve.

— Não.

— Mas talvez me dê tempo de parar.

Ele finalmente olhou para ela pelo retrovisor.

— Dá.

Juracy recostou no banco.

A cidade passava pela janela.

Pela primeira vez, Adrianópolis pareceu distante.

Não em quilômetros.

Em consciência.


Capítulo 15 — Terra limpa

O texto de Juracy e Isaías foi publicado numa plataforma pequena, sem algoritmo generoso, sem impulsionamento, sem contagem escandalosa de visualizações.

Fabíola escreveu a legenda três vezes.

Na primeira, parecia propaganda.

Na segunda, confissão demais.

Na terceira, ficou simples:

“Eu vivi muito tempo tentando ser vista. Este vídeo não é sobre mim. É sobre o que acontece quando a gente esquece de enxergar.”

Publicou.

Desligou o aparelho.

Ninguém aplaudiu.

Nenhuma marca voltou.

Nenhum contrato ressuscitou.

Nenhuma multidão pediu desculpas.

E isso foi estranho.

Depois, foi bom.

Porque aquela publicação não era mais um pedido para ser admirada.

Era uma convocação silenciosa.

Não para que o mundo concordasse com ela.

Mas para que alguém, em algum lugar, desligasse a tela, levantasse da cadeira e fizesse a única coisa que muda uma vida: começasse.

Naquela tarde, ela desceu para o jardim. Isaías preparava um canteiro novo. Juracy observava da varanda, com uma manta leve sobre os ombros.

— Posso ajudar? — perguntou Fabíola.

Isaías olhou para suas unhas.

— Pode.

— Não vai fazer piada?

— Ainda estou escolhendo.

Ela sentou perto da terra.

— O que faço?

— Primeiro tira essas folhas secas.

— Assim?

— Não. Com a mão.

— Vai sujar.

Ele a olhou.

Ela entendeu.

Enfiou os dedos na terra.

A sensação era fria, úmida, estranha. Nada parecida com os cremes caros que costumava anunciar. A terra não prometia rejuvenescimento, brilho ou alta performance. Prometia apenas ser terra.

Juracy, da varanda, comentou:

— Cuidado com as minhocas.

Fabíola gritou:

— Tem minhoca?

Isaías sorriu.

— Tem.

— E elas mordem?

— Só influenciadora.

Pela primeira vez em semanas, Fabíola gargalhou.

Juracy também.

O riso atravessou o jardim como chuva fina.

Trabalharam até o fim da tarde. Fabíola errou tudo no início. Arrancou muda errada, apertou demais a terra, quase pisou num broto. Isaías corrigiu sem humilhar. Ela aceitou sem se defender.

Isso, para ambos, era novidade.

Quando terminaram, o canteiro parecia pequeno demais para a importância que tinha.

Mas algumas coisas começam pequenas porque ainda não querem assustar.

Juracy desceu da varanda com dificuldade.

— Ficou bonito.

— Ficou torto — disse Isaías.

— Bonito e torto não são inimigos.

Fabíola limpou a testa com o braço, deixando uma marca de terra no rosto.

— Como estou?

Isaías respondeu:

— Real.

Ela ficou em silêncio.

Dessa vez, o elogio não precisava de câmera.


Capítulo 16 — Perto do Iranduba

Seis meses depois, a casa de Adrianópolis já não respirava do mesmo jeito.

Não estava curada.

Casas não se curam.

Apenas aprendem novos barulhos.

O celular de Fabíola ainda existia, mas deixara de mandar nela. Ela trabalhava menos, recusava quase tudo, fazia vídeos pequenos quando tinha algo a dizer e desaparecia quando não tinha. Perdera milhões de seguidores. Ganhara algumas pessoas.

A diferença era mais importante do que o número.

Juracy envelhecera mais em seis meses do que nos cinco anos anteriores. O corpo, quando decide cobrar, não parcela. Ainda assim, havia nela uma leveza nova. Não a leveza de quem resolveu a vida, mas de quem parou de vencer discussões inúteis.

Isaías continuava cuidando do jardim.

Mas agora, algumas tardes, ficava olhando longe.

Fabíola percebia.

Não perguntava sempre.

Aprendera que existem sonhos que se assustam quando alguém acende luz demais.

Naquele fim de tarde, as mangueiras faziam sombra sobre o quintal. O ar tinha cheiro de chuva distante. Juracy lia na varanda. Fabíola e Isaías preparavam mudas de cupuaçu em pequenos sacos pretos.

O telefone dele tocou.

Isaías limpou a mão na bermuda e atendeu.

— Alô.

Ouviu.

— Sei.

Ouviu mais.

— Perto de onde?

Fabíola parou sem parecer que parava.

Juracy abaixou o livro.

— Entendi.

Silêncio.

— Vou ver.

Ele desligou.

Continuou mexendo na terra.

Fabíola esperou.

Juracy não.

— Quem era?

— Um conhecido.

— E conhecido agora liga para falar de quê?

Isaías quase sorriu.

— Apareceu um terreno.

Fabíola sentiu o coração acelerar por ele.

— Onde?

Ele olhou para as mudas.

— Perto do Iranduba.

O nome pousou no jardim.

Como pássaro.

Como promessa.

Como medo.

— Tu vai olhar? — perguntou Fabíola.

— Vou.

— Quando?

— Semana que vem.

Silêncio.

Mais alguns segundos.

Juracy ajeitou os óculos.

— E o que tem nesse terreno?

Isaías deu de ombros.

— Mato.

— Só isso?

Ele olhou para ela.

— Para começar, é tudo que eu preciso.

A velha fechou o livro devagar.

Fabíola voltou a mexer nas mudas. Tinha vontade de dizer que ajudaria. Que pesquisaria financiamento. Que conhecia gente. Que podia abrir caminhos. Mas percebeu a tempo que nem toda ajuda começa com anúncio.

Às vezes começa em silêncio.

Guardou a vontade no peito.

Mais tarde talvez perguntasse.

Mais tarde talvez oferecesse.

Mais tarde talvez fosse com ele.

Por enquanto, bastava não tomar o sonho dele como quem toma a frente de uma fotografia.

Juracy chamou:

— Isaías.

— Senhora?

Ela respirou fundo.

— É Jorge Teixeira.

Ele ficou parado.

Fabíola olhou para a avó.

— O quê? — perguntou Isaías.

— O bairro. Eu estava pronunciando errado.

Por um instante, ninguém falou.

Então Fabíola começou a rir.

Isaías tentou segurar, mas riu também.

Juracy fingiu irritação.

— Não vejo graça.

— A senhora vê sim — disse Fabíola.

A velha olhou para o jardim.

Viu Isaías com as mãos sujas de terra.

Viu Fabíola com o rosto menos perfeito e mais vivo.

Viu as mudas pequenas, frágeis, esperando um futuro que talvez viesse e talvez não.

Durante anos acreditara que a doença do mundo estava nas telas.

Depois percebeu que as telas apenas ampliavam uma enfermidade muito mais antiga.

A dificuldade humana de enxergar quem está ao lado.

Também descobriu, tarde, que havia passado boa parte da vida explicando os que faziam, enquanto permanecia protegida no conforto dos que interpretam. Jung lhe ensinara a procurar a sombra. Nietzsche, agora, parecia lhe soprar uma vergonha mais simples: não basta compreender a vida; é preciso ter coragem de vivê-la.

Levou noventa anos para aprender isso.

Ainda bem que não foi tarde demais.

O céu escureceu sobre Manaus.

Ao longe, a chuva começou a cair em algum lugar entre a cidade e a floresta.

Isaías voltou aos sacos de muda.

Fabíola sentou ao lado dele.

Juracy permaneceu na varanda.

E a casa, velha e teimosa, continuou respirando.


Epílogo — A estrada

Na semana seguinte, Fabíola pediu para ir junto.

Isaías demorou a responder.

— Para quê?

— Nunca vi um terreno perto do Iranduba.

— Nunca viu mato?

— Mato, não. Só pela janela do avião.

Ele riu.

Talvez pela primeira vez sem se defender.

— Então está na hora de conhecer.

Foram de manhã.

Sem equipe.

Sem câmera.

Sem promessa.

A estrada cortava o verde com a indiferença das coisas antigas. Fabíola olhava pela janela como quem reaprende uma língua. Isaías dirigia em silêncio, mas suas mãos no volante denunciavam ansiedade.

— Está nervoso? — ela perguntou.

— Estou.

— Por quê?

— Porque sonho quando chega perto parece dívida.

Ela entendeu.

Não completamente.

Mas o bastante para não responder.

O terreno ficava depois de um ramal estreito. Havia mato alto, terra irregular, algumas árvores, muito trabalho e quase nada pronto.

Isaías desceu primeiro.

Ficou parado.

Fabíola desceu depois.

— É bonito — disse.

— É bruto.

— Também.

Ele caminhou alguns passos, abaixou-se, pegou um punhado de terra e apertou entre os dedos. Não sorriu. Ainda não.

Sonhos de pobre não sorriem cedo.

Eles primeiro calculam.

Medem.

Desconfiam.

Procuram a armadilha.

Fabíola ficou atrás, respeitando.

Depois de um tempo, perguntou:

— Dá para plantar?

Isaías olhou para a terra na mão.

— Dá.

— Cupuaçu?

— Dá.

— Macaxeira?

— Dá.

— Banana?

Ele virou para ela.

— Tu só conhece essas três coisas?

— Estou começando.

Ele sorriu.

Pequeno.

Mas verdadeiro.

Ao longe, um pássaro gritou dentro do mato.

O vento passou pelas folhas.

Fabíola não sabia se aquele terreno seria comprado. Não sabia se Isaías conseguiria. Não sabia se ela teria lugar nessa vida que começava a se anunciar.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, não precisava saber tudo antes.

Isaías abriu a mão e deixou a terra cair.

— Aqui ainda não é meu — disse.

Fabíola olhou para o mato.

— Mas já te reconheceu.

Ele não respondeu.

A estrada de volta esperava.

Manaus esperava.

Juracy esperava.

A vida, essa velha desobediente, também esperava.

E, naquele pedaço de chão perto do Iranduba, alguma coisa silenciosa começava a criar raiz.

Há pessoas que passam a vida inteira esperando autorização.

Autorização da família.

Do patrão.

Da cidade.

Do dinheiro.

Da idade.

Da opinião dos outros.

Mas a vida raramente autoriza alguém em voz alta. Ela apenas abre uma fresta pequena e observa quem tem coragem de atravessar.

Quem nada faz sempre terá tempo para julgar.

Quem faz, quase nunca tem esse luxo.

Isaías olhou mais uma vez para o terreno.

Fabíola olhou para Isaías.

Nenhum deles sabia se daria certo.

Mas, pela primeira vez, isso não era motivo suficiente para ficar parado.

Fim.

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